A estratégia da China para desafiar a hegemonia norte-americana consiste em replicar metodicamente o caminho percorrido pelos EUA, a partir de 1914, até a consolidação do dólar como moeda de reserva internacional, em Breton Woods, em 1944.
De acordo com o padrão histórico, o ciclo de existência das moedas de reserva se inicia pelo controle das rotas comerciais pelo país emitente da moeda, o que propicia ao mesmo um acúmulo massivo de riqueza, até que a sua moeda atinja o ápice, sendo oficialmente estabelecida como central no sistema global (como ocorreu com o dólar em Bretton Woods, em 1944). Com a conversão da sua moeda em moeda de reserva, o país emitente precisa injetar liquidez no mercado, para que os demais países tenham acesso à moeda que devem guardar nos cofres dos seus bancos centrais. Tal injeção de liquidez se faz com a redução da produção no país emitente da moeda de reserva, que deve passar a importar bens de forma massiva, dando em troca a moeda de reserva, de forma a fornecer ao sistema a liquidez necessária. O país emissor passa a importar bens reais produzidos pelos demais países, em troca de notas que ele próprio emite, a um custo irrisório, o que os franceses chamaram de “privilégio exorbitante”.
Todavia, a necessidade imperiosa do país emissor da moeda de reserva registrar déficits comerciais constantes, para proporcionar liquidez ao mercado internacional, compromete a capacidade industrial do país, fenômeno conhecido como o Dilema de Triffin. O registro de déficits comerciais persistentes obriga o país a emitir a moeda de reserva imoderadamente, mesmo quando o nível de liquidez necessário já foi atingido, o que conduz à perda do valor real da moeda de reserva. Quando a perda de valor da moeda de reserva se torna importante o mercado passa gradualmente a buscar proteção em outros ativos ou em uma outra moeda, levando ao colapso da moeda precedente e a substituição da mesma por uma outra moeda de reserva.
Enquanto o dólar percorre o inexorável ciclo existencial das moedas de reserva, a China tornar-se o maior credor global, através da Belt and Road Initiative (Iniciativa Cinturão e Rota), no âmbito da qual o país oriental financia infraestrutura em mais de 150 países, criando uma rede de dependência financeira semelhante à que os EUA construíram no pós-guerra. Paralelamente, a China acumula quantidade massiva de ouro, a fim de lastrear sua influência em ativos reais, como fizeram os EUA, que em 1944 detinham 70% do ouro monetário global. A China cria, ainda uma infraestrutura financeira alternativa ao SWIFT norte-americano, com o desenvolvimento do CIPS (Cross-Border Interbank Payment System) e com a implementação do Yuan Digital, visando garantir a soberania financeira e diminuir a dependência do sistema do dólar. Enquanto tais iniciativas maturam, a China, com paciência estratégica, aguarda o agravamento das fraquezas estruturais do rival americano, em decorrência do Dilema de Triffin, da Dominância Fiscal (endividamento público), da polarização política interna, do desgaste das alianças históricas e da multiplicidade de conflitos internacionais.
Por seu turno, a incapacidade dos EUA de reabrir o Estreito de Ormuz em face do Irã sinaliza o fim do "seguro” de funcionamento do mercado global oferecido pelos EUA, como lastro militar que suporta o valor intrínseco do dólar. Com uma dívida de US$ 38 trilhões, cada aumento de juros para conter a inflação repatriada pela desdolarização aumenta o custo de rolagem da dívida pública, drenando o orçamento de Defesa pela necessidade de pagar juros; e, como leciona Ray Dalio, a polarização interna nos EUA impede que Washington tome medidas amargas de austeridade, preferindo-se a monetização do déficit (impressão de dólares para pagar a dívida e/ou o serviço da mesma), que aumenta a base monetária e gera inflação, ao conflito social que as medidas de austeridade certamente trariam.
A China está atualmente na fase de construção da dominância, enquanto o dólar é identificado na Fase de Perda de Confiança, marcada pela queda de sua participação nas reservas globais de 72% para 58% nos últimos 24 anos. No entanto, a China enfrenta as suas próprias fragilidades. Embora Pequim execute metodicamente o playbook de ascensão inspirado nos EUA, a transição da dominância do dólar para o Yuan (unidade básica da moeda oficial da China, o Renminbi: moeda do povo) enfrenta barreiras estruturais. Diferente dos EUA de 1944, que possuíam uma demografia jovem e uma economia de mercado aberta, a China de 2026 lida com um rápido envelhecimento populacional; com um controle de capital rigoroso; com a intervenção do Estado chinês no câmbio; com a falta de um Estado de Direito (Rule of Law) independente, e com a resistência de Pequim em aceitar os déficits comerciais necessários para fornecer liquidez global (o Dilema de Triffin).
Uma moeda de reserva global requer previsibilidade, liquidez e conversibilidade, características que colidem com a política cambial de Pequim e com o controle de capital exercido pela China. Para manter sua competitividade, o Estado chinês manipula o câmbio; com os objetivos de manter o controle político sobre as empresas, o governo chinês impõe limites rigorosos a investimento estrangeiro, através da fixação de cotas e requisitos de aprovação para que investidores globais comprem ações ou títulos na China; para evitar a fuga de capital em momentos de crise, Pequim controla a saída de capital doméstico, impondo limites anuais estritos para que cidadãos chineses convertam Yuans em moedas estrangeiras ou enviem dinheiro para o exterior e dificulta a repatriação de lucros, submetendo as empresas multinacionais a processos burocráticos e regulatórios complexos para retirar seus lucros do território chinês. Para o investidor internacional, esses controles são vistos como atos de arbitrariedade política. O capital internacional teme tais interferências do Partido Comunista na economia, constituindo-se as mesmas nas maiores barreiras para a hegemonia do Yuan, em substituição ao dólar
Diferente da transição da Libra para o Dólar (1914-1944), a atual desmontagem hegemônica não aponta para um substituto único. O cenário mais provável, portanto, não é a substituição do dólar pelo Yuan, mas uma fragmentação do mercado em blocos, onde a China domine o comércio físico de commodities, enquanto os EUA retenham o controle do sistema financeiro ocidental. Com a fragmentação ter-se-ia a Zona do Dólar, restrita às Américas e parte da Europa, operando sob alta inflação e dominância fiscal; a Zona do Yuan, liderada pelos BRICS+, liquidando trocas de ativos tangíveis (energia e metais) em Yuan; e o ouro como lastro neutro, utilizado para a liquidação de saldos entre blocos que não confiam mutuamente em suas moedas fiduciárias.
Neste cenário, a importância internacional do dólar não desaparece, apenas a moeda norte-americana perde fatias de mercado ainda maiores para um sistema multipolar, em um processo incremental. O dólar sobrevive devido ao seu Efeito de Rede (Network Effect), representado pela inércia de bilhões de contratos já assinados na moeda norte-americana, o que contribui para que o seu colapso seja gradual e não abrupto. O ouro volta a ser percebido pelos Bancos Centrais como o ativo de reserva por excelência, o único sem risco de utilização como arma geopolítica.
O fim do "privilégio exorbitante" dos EUA obrigará o país à readaptação a uma condição de nação normal, que precisa produzir o que consome e equilibrar os seus gastos. O fim do ciclo hegemônico do dólar é, em última análise, um ajuste à normalidade. Os EUA serão forçados a abandonar a ficção de que podem consumir infinitamente o que não produzem e imprimir a moeda que o mundo é obrigado a aceitar em pagamento dos persistentes déficits comerciais norte-americanos.