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O CONFLITO RUSSO-UCRANIANO PERSISTE

Premida pela invasão em grande escala perpetrada pela Rússia, a Ucrânia deixou de ser apenas um país que precisa de socorro externo para se tornar um aliado importante da Europa, sobretudo, mas também do Oriente Médio e até dos EUA, fornecendo tecnologia de drones os mais variados, para a guerra assimétrica.

A Ucrânia é atualmente o principal hub de inovação e de doutrina de guerra assimétrica do mundo. Enquanto a Rússia depende de drones iranianos (Shahed) para bombardear a Ucrânia, esta última acumulou a maior base de dados e experiência prática do planeta sobre como abater esses mesmos equipamentos.

Países do Oriente Médio, especialmente as monarquias do Golfo, que os EUA se mostraram incapazes de defender, o que deveriam fazer em virtude do acordo do Petrodólar, agora importam especialistas militares ucranianos para treinar suas defesas.

A Ucrânia tornou-se o laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento em guerra assimétrica mais avançado do mundo. Ela não apenas usa drones, ela criou uma industrial de guerra para tais equipamentos que nenhum país da OTAN possui em escala real de combate. O país desenvolveu um sistema interno de logística onde os soldados escolhem equipamentos de um catálogo de mais de 470 tipos de drones. A Ucrânia tornou-se um modelo de projeção de poder de baixo custo e alta eficácia.

No verão de 2025, em um campo de batalha no Leste da Ucrânia, o país conduziu a primeira operação em que uma posição inimiga foi conquistada exclusivamente por sistemas de arma automatizados. Foram utilizados pequenos veículos terrestres não tripulados (UGVs), descritos como tendo o tamanho de carrinhos de jardinagem, cada um carregando 30 kg de explosivos. Os robôs cruzaram um vale em direção às trincheiras russas, guiados remotamente e apoiados por um drone aéreo que abria o caminho. Um dos robôs detonou sua carga para romper a defesa, enquanto os outros mantiveram a posição. Diante da investida puramente mecânica, os soldados russos dentro da trincheira renderam-se. A operação foi comandada pelo Tenente Zinkevic, que imortalizou o momento com a frase: "É melhor mandar metal do que pessoas, robôs não sangram".

O evento representou o marco inicial de uma escalada impressionante: se no verão de 2025 o uso era experimental, em março de 2026 o exército ucraniano já contabilizava mais de 9.000 missões com veículos terrestres não tripulados (UGVs).

Com a Europa iniciando um processo de rearmamento tardio, a tecnologia ucraniana, testada em combate real contra sistemas de guerra eletrônica russos, é imensamente mais valiosa do que protótipos de laboratórios ocidentais que nunca viram o campo de batalha.

Ao se tornar o suporte técnico do Golfo contra o Irã e o centro de inovação da OTAN contra a massa militar russa, a Ucrânia garante sua relevância. A Ucrânia não está apenas lutando pela sua sobrevivência, ela está a desenvolver a tecnologia com a qual todas as guerras serão travadas na próxima década. Para os EUA e a Europa, abandonar a Ucrânia agora significaria ceder a liderança da tecnologia militar mais importante do século XXI.

O Kremlin, por seu turno, se vê em enorme dificuldade financeira, apesar a alta no preço do petróleo, provocado pela desastrada campanha dos EUA contra o Irã. Putin se viu forçado a pedir contribuições voluntárias aos oligarcas russos para cobrir o déficit orçamentário causado pela guerra, desmentindo a propaganda de uma economia próspera.

Em um ano, a Rússia perdeu influência direta sobre a Síria, de Assad, a Venezuela, de Maduro, a Hungria, de Victor Orbán, e agora vê o Irã devastado. Em reunião com a elite econômica e industrial do país, Putin declarou "Quem está envolvido no conflito não consegue prever nada e para nós é ainda mais difícil.", admitindo que a Rússia perdeu o controle sobre a guerra.

Embora a Ucrânia não tenha a escala da Rússia, está a explorar as vulnerabilidades russas com mísseis de longo alcance e drones, forçando o Kremlin a uma fase defensiva dispendiosa. O reservatório quase ilimitado de soldados russos está a esgotar-se. O regime tem recorrido a táticas desesperadas, como enganar jovens africanos com promessas de estudo para enviá-los para a frente de batalha. Universidades em Moscovo e São Petersburgo são usadas como fontes de recrutamento. Alunos que reprovam e até muitos aprovados recebem avisos de mobilização juntamente com as notas, uma prática que está a devorar a classe intelectual do país.

No entanto, a paz, para a elite russa, pode ser mais perigosa que a guerra, que se tornou indispensável para a sobrevivência do atual sistema de governo. É o conflito que justifica a repressão, os apagões de internet, o controle da mídia e a perseguição a dissidentes. Sem a ameaça existencial da guerra, o Kremlin teria dificuldade em explicar o porquê de 100 milhões de russos obrigados a usar apps de vigilância (o Max) e porque a economia está estagnada. Encerrar a guerra obrigaria o regime a responder à pergunta que ele mais teme: Por que fizemos tudo isso?. Sem a cortina de fumaça do conflito, o custo humano do mesmo, que seria inevitavelmente revelado com o retorno dos soldados sobreviventes ao seio da sociedade, tornar-se-ia politicamente insuportável. Manter-se em guerra permite que Putin conserve o isolamento da Rússia do mundo ocidental. A paz exigiria uma reabertura que traria de volta as influências e informações que o Kremlin trabalhou tanto para bloquear.

A Rússia operou uma transição radical para uma economia de guerra. Com taxas de juros em 15,5% e o esgotamento do Fundo de Bem-Estar Nacional, o país consumiu todas as possiblidades que tinha para o fomento de uma economia civil saudável. Interromper a produção militar agora geraria um desemprego em massa e uma crise de demanda que o Estado não teria recursos para amortecer. A guerra mantém as fábricas funcionando e os subsídios fluindo, a paz revelaria o vazio deixado pela desindustrialização civil.

Os expurgos militares promovidos por Putin mostram que ele teme seus próprios generais. Uma paz insatisfatória provocaria uma reação da elite, pois daria aos sobreviventes das purgas o pretexto perfeito para um golpe, sob a narrativa de que Putin sacrificou o exército e a nação em vão.

O Estado Russo consome o futuro do país - a juventude, a formação intelectual e as reservas financeiras - para manter-se em guerra, pois, parar os combates agora provocaria o colapso imediato do Regime. Assim, diante da impossibilidade de vencer a guerra, a estratégia russa atual busca a perpetuação do conflito. Se Putin aceitar uma paz que não seja uma vitória total (a rendição de Kiev), ele terá admitido o erro de cálculo de 2022.