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O COMPLEXO CONFLITO EUA VERSUS IRÃ

Na esteira do retumbante sucesso da operação Resolução Absoluta (Operation Absolute Resolve), que resultou na captura de Nicolás Maduro, os EUA se lançaram em nova empreitada, utilizando-se de métodos semelhantes, desta vez contra o Irã.

Os objetivos da missão, segundo diretrizes da Casa Branca e do Pentágono, são forçar o regime iraniano a aceitar termos restritivos para o seu programa nuclear; garantir a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz, por onde transita grande parte do petróleo mundial; e reduzir as capacidades iranianas de atingir aliados norte-americanos na Região, como Israel e os Estados árabes do Golfo, com o emprego de mísseis balísticos e drones.

Diferentemente da doutrina Mudança de Regime (Regime Change), adotada nos anos 2000, a qual se mostrou logisticamente cara e politicamente instável, como se viu nos casos do Iraque e da Líbia, a atual Administração norte-americana, com a nova estratégia denominada Submissão Estratégica, não prioriza a derrubada do governo de Teerã, mas sim impor ao adversário limitações perpétuas em suas ambições nucleares e de influência regional.

O incentivo pessoal de Donald Trump aos manifestantes iranianos, através dos posts nas redes sociais com o slogan "MIGA - Make Iran Great Again" não visaram derrubar o regime, mas enfraquece-lo através das manifestações, para força-lo a aceitar termos que um governo estável recusaria. Todavia, eventual colapso do regime, em lugar da sua submissão, colocaria os EUA diante do caos provocado pelo vácuo de poder, caro de preencher, o que se pretende evitar.

Combinada com a Diplomacia do Martelo (Hammer Diplomacy), inspirada na operação Martelo da Meia-Noite (Midnight Hammer Operation), de junho/2025, que representou o abandono da paciência estratégica em favor de ações cinéticas abruptas e devastadoras, a Submissão Estratégica, de 2026, representa, em essência, o uso do capital econômico e militar dos EUA para tornar o custo da resistência insustentável para o Irã. Trump aposta que a elite iraniana valoriza a própria sobrevivência acima da ideologia e que, se o custo da resistência for a destruição total da economia e da infraestrutura, a submissão será vista como a única forma de autopreservação. A aposta de Trump baseia-se na premissa de que a elite iraniana é pragmática, preferindo a renúncia à soberania nuclear à perda total de suas propriedades e da infraestrutura nacional.

Ademais, a captura de Maduro na Operação Resolução Absoluta estabeleceu um precedente em que os EUA deixaram de tratar o líder adversário como um interlocutor político diplomático para tratá-lo como um criminoso comum. Ao manter Maduro no Metropolitan Detention Center em Nova York por acusações de narco terrorismo, Washington sinaliza à elite iraniana que, caso não aceitem a submissão, os seus líderes não serão tratados como combatentes ou estadistas em um eventual conflito, mas como réus em tribunais civis americanos.

No entanto, utilizando-se de defesa híbrida, o Regime pode oferecer resistência, posicionando  submarinos de pequeno porte da classe Ghadir ao redor da a frota americana, nas águas rasas do Golfo, as quais dificultam a detecção dos mesmos por sonares, o que aumenta o risco militar e político de um ataque norte-americano ao país; ameaçando fechar o estreio de Ormuz, com o emprego de minas inteligentes, drones e mísseis, paralisando de 25% a 27% do comércio marítimo global de petróleo e fazendo o preço da commodity disparar no mercado internacional; e se utilizando do que resta do Hezbollah no Líbano, na Síria e no Iraque e dos Houthis no Iêmen para ameaçar ativos de aliados dos EUA na Região.

 O posicionamento de submarinos iranianos em torno da força-tarefa Armada Massiva dos Estados Unidos, liderada pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln, no Golfo Pérsico, é uma lição de dissuasão assimétrica que redefine o conceito de controle em águas confinadas. O Golfo Pérsico é, por definição, uma armadilha tática para superpotências. Enquanto a projeção de poder americana foi desenhada para o oceano aberto — onde a distância e a velocidade garantem invulnerabilidade — o Golfo impõe a proximidade. Neste ambiente, a tecnologia de ponta dos grupos de batalha de porta-aviões enfrenta o fenômeno da saturação sonora e geográfica. Em águas rasas, o ruído ambiental e a reflexão de sinais degradam a eficácia dos sonares, tornando os submarinos convencionais do inimigo, mesmo os menos sofisticados, difíceis de serem localizados e os espaços reduzidos do golfo prejudicam a manobrabilidade das grandes navis bellum norte-americanas.

O objetivo de Teerã não é a vitória militar em um embate direto, que certamente resultaria em sua aniquilação, mas sim a paralisia decisória do adversário. A simples presença de uma ameaça submarina indetectável força a frota americana a uma postura defensiva de sobrevivência, fazendo-a hesitar em atacar seus alvos militares. Operando abaixo do limiar da guerra declarada, o Irã pode ser capaz de dissuadir o inimigo que pretende ataca-lo, sem oferecer um casus belli claro. Os EUA se vêm na dificuldade de responder a um cerco que não se vê e que não foi oficialmente anunciado.

Para complicar ainda mais a situação, há a oitava edição do Cinturão de Segurança Marítima, exercícios navais conjuntos entre China, Rússia e Irã, programados para meados de fevereiro/2026, no norte do Oceano Índico e no Golfo de Omã, que representam o ápice de uma aliança de conveniência que visa desafiar a hegemonia naval dos Estados Unidos na Região. Enquanto os EUA tentam tratar o Irã como um alvo isolado, os exercícios conjuntos provam que Teerã faz parte de um bloco de segurança euroasiático.

Aproximadamente 84% do petróleo de Ormuz se destina a países da Ásia, entre os quais a China, cuja segurança energética depende do fluxo de tal fornecimento, o que explica a participação da China nos exercícios do Cinturão de Segurança Marítima, enquanto a participação da Rússia é movida pelo propósito de contestação da ordem global liderada pelos EUA.

A presença de navios de guerra de potências globais como China e Rússia em meio ao cerco americano ao Irã impõe obstáculos críticos à estratégia de Submissão Estratégica de Trump. A simples presença de tais ativos militares no Golfo de Omã cria um escudo tático, pois qualquer ataque acidental a uma dessas naus durante uma incursão contra o Irã escalaria de uma crise regional para um conflito global imediato. Os exercícios conjuntos permitirão que a Rússia, com a sua expertise em guerra eletrônica e radares de longo alcance, e a China, com sua rede de satélites e drones, compartilhem dados de vigilância em tempo real com Teerã, neutralizando o fator surpresa da ação norte-americana; e o foco do treinamento em operações conjuntas de busca, salvamento e segurança marítima levarão os três países, na verdade, a mapear os pontos cegos da frota americana, dificultando o bloqueio naval total pretendido pelo Pentágono, evitando que as sanções sufoquem o regime iraniano para força-lo à capitulação.

Diante do risco de escalada do conflito, da ameaça aos ativos militares americanos envolvidos na operação e do potencial impacto sobre o comércio internacional de energia, o que deveria ser uma demonstração de força pode-se converter em um exercício de contenção de danos para os EUA. O Irã tenta provar que, para neutralizar um gigante, não é necessário ser maior que ele, basta ser invisível e tornar o custo da ação inimiga proibitivo.