Sem objetivos claros, os EUA entraram numa guerra em que o Irã utiliza o mercado de energia como sua principal arma contra a enorme superioridade militar do inimigo. As primeiras horas da guerra pareciam anunciar uma rápida e total obliteração do Regime iraniano, com a eliminação dos seus principais líderes, por ataques cirúrgicos dos EUA e de Israel. No entanto, o Regime mostrou resiliência. Com a eleição de Mojtaba Khamenei como líder Supremo, em lugar de seu pai assassinado, o Regime dos mulás permanece de pé, embora seja um Estado ferido.
Ficou claro que os EUA não conseguem neutralizar a arma econômica do Irã, garantindo a abertura do estreito de Ormuz sem colocar tropas no solo, medida à qual Trump resiste, por motivos políticos. Se a armada norte-americana tivesse a capacidade para manter o Estreito de Ormuz aberto por si só, já o teria feito. A inação militar americana em Ormuz sugere que o risco de perder ativos militares valiosos e vidas americanas na operação é demasiado elevado.
Ficou demonstrada também a incapacidade dos EUA de defenderem os seus aliados no Golfo Pérsico de ataques iranianos, feitos em retaliação à agressão norte-americana. A incapacidade de defesa gera um incentivo para que as monarquias do Golfo busquem acordos de não-agressão diretamente com Teerã, ignorando as diretrizes de Washington para isolar o Regime. Por décadas, as monarquias do Golfo venderam-se como portos seguros para capital e turismo em uma região turbulenta. No entanto, os ataques iranianos destroem a imagem de estabilidade, afugentando turistas, encarecendo seguros marítimos e inibindo investimentos em centros logísticos e de dados.
Com isso, os EUA perdem o papel de xerife inquestionável da Região para se tornarem um ator cuja presença militar, paradoxalmente, atrai mais riscos do que oferece proteção aos seus aliados, que, portanto, tendem a se distanciar de Washington para garantir a própria sobrevivência. Por outro lado, a dependência chinesa do petróleo que passa pelo Estreito de Ormuz (de 45 a 50% de suas importações) deve forçar Pequim a assumir um papel de garante da segurança regional ou mediadora, ocupando a posição perdida pelos EUA.
Diante da ameaça de que a guerra provoque um quadro global de inflação e estagnação econômica, em um ano eleitoral nos EUA, Trump prepara a opinião pública americana para uma retirada dos EUA da guerra, adotando objetivos minimalistas, a fim de poder declarar vitória. Donald Trump, que inicialmente falava numa rendição incondicional do Irã, mudou o discurso assim que os preços da gasolina dispararam nos EUA. Trump sempre tende a recuar quando a economia é afetada, já havendo até uma parábola para isso: Trump always chickens out when the economy is bad.
Outros fatores limitantes para os EUA são a escassez de munições avançadas, como os Patriots, uma vez que o complexo industrial não consegue acompanhar o ritmo dos disparos; e a dimensão das reservas estratégicas de petróleo, usadas para amenizar o choque provocado pela redução da oferta da commodity, devido ao bloqueio de Ormuz. Assim, Trump está prestes a desistir de derrubar o Regime iraniano, de recuperar o Urânio enriquecido e mesmo de garantir a estabilidade da Região, limitando-se a destruir a capacidade missílica iraniana e a danificar a infraestrutura nuclear do país persa.
Israel, por seu turno, que sempre teve objetivos claros na guerra, pretende enfraquecer o Irã até que este perca totalmente a capacidade de projetar poder. A fragmentação do Irã em milícias étnicas e regionais atenderia ao interesse de Israel, pois, sendo o Irã distante mais de um mil quilómetros de Israel (entre as capitais, a distância é de 1600Km), e tendo-se em conta que Israel mantém suas fronteiras fortemente guardadas, a fragmentação e o caos no Irã não seriam um problema para o Estado hebreu, mas sim para os países vizinhos do golfo e para a Europa, que correm o risco do êxodo da população iraniana, em grandes ondas migratórias, agravando o problema dos refugiados, que já assola especialmente a Europa.
A preocupação de Israel com o caos no Irã diz respeito unicamente à posse do material físsil. Tal preocupação pode levar Israel a colocar suas botas em solo iraniano, na tentativa de capturar o urânio enriquecido, com o apoio aéreo dos EUA, em especial quanto às aeronaves de reabastecimento, mas o tempo para a realização de uma manobra como essa é cada vez mais escasso, pois os EUA em breve devem impor o fim das hostilidades, para assegurar a reabertura do Estreito de Ormuz.
Um balancete da guerra até o momento, com um demonstrativo de resultado baseado nos objetivos, declarados ou supostos, de cada parte do conflito, dá uma ideia de vencedores e vencidos. O principal objetivo, colimado pelos EUA e Israel, seria garantir o fim do programa nuclear iraniano. Em seguida viria a extinção do programa de mísseis e, por fim, a eliminação da capacidade do Regime persa de projetar poder através de proxies. O Regime iraniano, por seu turno, almeja manter-se vivo e provar a eficácia da sua guerra híbrida, baseada no fechado o estreito de Ormuz durante a agressão, para impor um alto custo econômico à iniciativa do inimigo, a fim de abreviar o conflito e desestimular futuras incursões hostis ao Regime, valendo-se para tanto da vantagem proporcionada por sua posição geografica.
Caso o Regime iraniano se mantenha, os Programas Nuclear e de Mísseis serão retomados, impulsionados pelo aumento do preço médio do petróleo no mercado internacional e protegidos pela demonstração de efetividade e força da guerra híbrida iraniana. Neste cenário, o Irã sairia vitorioso, os EUA sentiriam os efeitos econômicos do conflito em um ano eleitoral, sem alcançar os objetivos políticos da guerra; e Israel perderia o apoio norte-americano para realizar novas incursões e até seria impedido pelos EUA de fazê-las sozinho. O petróleo em torno de US$ 90,00 por barril seria o estimulante da reconstrução iraniana e, simultaneamente, o veneno para as pretensões de Trump em relação às eleições de meio de mandato (midterm), nos EUA.
O prazo para os EUA e Israel reverterem tais resultados adversos corresponde à duração dos 400 milhões de barris liberados pelo G7 e pelos EUA dos seus estoques estratégicos de petróleo, quantidade esta empregada para minimizar o impacto da crise sobre os preços dos combustíveis no mercado internacional. Com a perda de 20 milhões de barris ao dia, pelo bloqueio de Ormuz, essas reservas durariam em torno de 20 dias, talvez um pouco mais devido ao afrouxamento das sanções contra o petróleo russo. O tempo corre contra os aliados.