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A UCRÂNIA VEM EM SOCORRO DOS EUA NO GOLFO

O conflito do Golfo Pérsico expôs uma vulnerabilidade sistêmica na doutrina militar dos EUA. A estratégia americana, fundamentada em plataformas massivas e caras, como os grupos de batalha de porta-aviões e sistemas de defesa Patriot, revelou-se ineficaz e financeiramente insustentável contra a guerra assimétrica iraniana. Depois de espalhar morte e destruição a um custo diário de US$ 2 bi, sem atingir seus objetivos políticos, os EUA fazem um esforço de adaptação estratégica, abandonando os bombardeios intensivos sobre o inimigo, para impor um bloqueio naval completo ao mesmo, capaz de infringir um dano à economia iraniana estimado em US$ 400 milhões por dia.

O Irã, por seu turno, mantém o bloqueio do Estreito de Ormuz, que estrangula a economia mundial e pressiona politicamente o presidente norte-americano, valendo-se ainda do cessar-fogo para desenterrar as reservas de seu arsenal de bunkers profundos, recursos que os 40 dias de pesados bombardeios norte-americano não foram capazes de aniquilar. Estima-se que o Irã ainda disponha de 60% dos seus lançadores de mísseis e 70% do seu estoque de mísseis com capacidade operacional, inclusive mísseis de cruzeiro Abu Mahdi e o hipersônico Fattah-2, além de 40% a 50% do seu arsenal de drones, entre Shaheds e os novos drones de reconhecimento, um volume capaz de saturar as defesas aéreas norte-americanas que protegem a sua frota e as instalações críticas dos seus aliados na Região.

Com os dois bloqueios simultâneos, o conflito chegou a um impasse, em que cada contendente tenta impor prejuízo econômico ao adversário, para quebrar a sua vontade, de forma a obter um acordo de paz mais vantajoso.  Contudo, há um risco real de retomada das hostilidades e os EUA sabem o quanto o conflito já degradou seu arsenal, comprometendo sua presença militar em pontos mais importantes do globo, razão pela qual prorrogam o cessar-fogo, apesar do Irã ignorar as ameaças norte-americanas para que reabra a passagem de Ormuz.

Em outro cenário de guerra, a Ucrânia desenvolveu, por necessidade de sobrevivência, a antítese da tecnologia russa e iraniana, que é empregada em ambos os conflitos. Empresas ucranianas como a Ratel Robotics, que antes da guerra produzia iluminação pública, passaram a criar Veículos Terrestres Não Tripulados (UGVs) que entregam suprimentos, colocam minas e evacuam feridos. Um novo modelo pode ir do papel para a linha de frente em apenas seis meses. No primeiro trimestre de 2026, drones e robôs ucranianos realizaram mais de 22.000 missões. Em março de 2026, a Rússia sofreu cerca de 35.000 baixas, segundo o Ministério da Defesa da Ucrânia, 96% das quais causadas por ataques de drones.

Diferente da Rússia, que aposta em programas estatais centralizados, a Ucrânia criou um mercado dinâmico e fragmentado com cerca de 2.300 empresas de defesa. A produção de drones na Ucrânia saltou de 800.000 há três anos para uma meta de 7 milhões em 2026. A Ucrânia agora produz mais de 1.000 drones interceptores por dia, uma alternativa barata aos caríssimos e escassos mísseis de defesa aérea de tecnologia norte-americana. Drones ucranianos de asa fixa atualmente têm alcance de até 1.500 km, permitindo ataques contra infraestruturas de energia e sistemas de defesa aérea no interior do território russo. O uso de sistemas movidos por IA está crescendo exponencialmente, ajudando a Ucrânia a resistir às investidas russas.

Tanta eficácia a baixo custo tem despertado o interesse das potências do Golfo e dos EUA em adquirir essa tecnologia, que já nasce sendo testada em combate, para neutralizar as ameaças assimétricas postas pelo Irã na região. A Ucrânia assinou acordos de 10 anos para a produção conjunta com a Arábia Saudita, o Catar e os Emirados Árabes Unidos, que envolvem a fabricação local de drones e sistemas de guerra eletrônica baseados na experiência de combate ucraniana.

Também os EUA estão integrando tecnologia ucraniana em suas operações, através de cooperação direta e treinamento em campo. A segurança de bases americanas, de seu pessoal e de pilotos de alto valor está agora vinculada à eficácia dos sensores acústicos e drones de baixo custo vindos da Ucrânia. Soldados americanos estão recebendo treinamento especializado de técnicos ucranianos no sistema Skymap de defesa aérea baseada em sensores acústicos, para proteger seus ativos contra ataques iranianos.

A contribuição ucraniana que vem em socorro dos EUA baseia-se na rede de sensores acústicos Sky Fortress, através da qual a Ucrânia solucionou a ameaça posta pelos drones iranianos que voam abaixo da linha do horizonte dos radares americanos. Ao substituir ondas eletromagnéticas pela análise de frequências sonoras com emprego de IA, Kiev devolveu a visão às bases americanas no deserto.

Também está sendo empregada no Golfo a expertise ucraniana desenvolvida na neutralização de minas no Mar Negro. Com o uso de navios de casco não magnético e veículos submarinos autônomos (ROVs), a Ucrânia está removendo o principal instrumento de chantagem iraniana, as minas, sem o risco de baixas que a Marinha dos EUA não estava disposta a aceitar.

Por fim, o emprego de drones interceptores de baixo custo (como o Merope) e drones navais (como o Sea Baby) permite que os EUA protejam petroleiros sem esgotar seus arsenais de mísseis estratégicos, equilibrando novamente a balança de custos do conflito.

A dependência estratégica dos EUA em relação à nova tecnologia da Ucrânia, um país que a Administração Trump abandonou, representa uma verdadeira ironia. A Ucrânia não está apenas limpando o Estreito de Ormuz e protegendo as bases e os aliados norte-americanos dos ataques iranianos, ela está fornecendo a ponte tecnológica que permite aos EUA manterem sua relevância no Oriente Médio, impedindo que o impasse em Ormuz se transforme em um desastre econômico global sob a vigilância norte-americana.

Para o resto do mundo, a Ucrânia deixa a lição de que, no cenário de guerra moderna, o tamanho do orçamento importa menos do que a velocidade de adaptação.