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A CRISE INTERNA NO IRÃ

No Capítulo XVII de sua obra mais célebre, Il Principe (O Príncipe), de 1513, Nicolò Machiavelli reflete acerca dos efeitos, sobre os súditos, do amor, do temor e do ódio à autoridade. Para o filósofo, o vínculo criado pelo amor ao líder é frágil, sendo frequentemente rompido pelo impulso egoísta dos homens, enquanto o medo é mais sólido, pois inspirado pelo receio do castigo, um sentimento que, segundo o autor, "não se abandona nunca". Machiavelli conclui que o ideal seria que o líder inspirasse o amor e o temor dos seus súditos concomitantemente, mas admite que um governante tem dificuldade de reunir essas duas qualidades, de forma que é muito mais seguro para a autoridade ser temida do que amada. Machiavelli ensina que o amor foge ao controle do príncipe, pois depende da vontade dos súditos, enquanto o medo é uma ferramenta que o soberano maneja por conta própria.

No entanto, embora defenda o uso do temor como instrumento de estabilidade política, Machiavelli impõe um limite: o príncipe deve fazer-se temer, mas jamais fazer-se odiar. A diferença entre ser temido e ser odiado corresponde à distinção entre a autoridade estável e a vulnerabilidade política, pois o ódio é o combustível das conspirações e das revoltas populares. O príncipe que governa pelo medo é um estratega; o que governa pelo ódio é um tirano imprudente destinado à queda, concluiu o filósofo.

No irã, a repressão ao levante popular mais recente, iniciado em dezembro de 2025, marcada por um apagão total da Internet de aproximadamente 12 dias, iniciado em 8 de janeiro de 2026, e pelo massacres de milhares de vítimas em diversas cidades, com números variando entre 3.400 e mais de 20.000 mortos, dependendo da fonte de monitoramento de direitos humanos, o Regime do Ayatollah Ali Khamenei violou a regra criada pelo pragmatismo político de Machiavelli, inspirando na população do Irã um ódio aparentemente irreconciliável.

Diferente da Revolução de 1979, que instaurou o atual Regime, quando o clero e pequenos comerciantes (os bazaaris) se uniram contra o Xá Mohammad Reza Pahlavi, a revolta de 2026 é transversal, abrangendo a classe média, mas também os pequenos comerciantes que sempre apoiaram o status quo; fazendo-se presente em Teerã, mas também nas áreas rurais, nas províncias periféricas e nos centros industriais; ecoando pautas das minorias étnicas e o desespero econômico da sociedade; e unindo nos protestos a Geração Z iraniana (nascidos a partir de 1995), conectada e secular, com gerações precedentes, que viveram a revolução que instaurou o Regime atual, o que dá ao movimento uma massa crítica difícil de isolar ou subordinar.

O movimento atual teve por estopim a crise econômica catastrófica que o país enfrenta. A inflação recorde e a desvalorização sem precedentes do Rial (a moeda local) tornaram bens básicos inacessíveis para a classe média e pequenos comerciantes (os bazaaris), tendo o descontentamento com o custo de vida evoluído rapidamente de uma pauta econômica para uma contestação existencial do regime teocrático.

No irã, onde a política e a religião são indissociáveis e o regime se sustenta na santidade de suas instituições, a presente revolta é iconoclasta, em que se veem a destruição de ícones e o desafio de dogmas estabelecidos, onde rasgar fotos de Khamenei e Khomeini e queimar o hijab (o véu de uso obrigatório pelas mulheres) não são meros atos de vandalismo, mas ataques ao corpo místico do Estado, gerando uma crise de legitimidade que não pode ser resolvida com reformas cosméticas.

A atual revolta inverte uma lógica do Estado iraniano, que sempre usou a figura do mártir para a coesão social - como fez em relação a Qasem Soleimani, general iraniano morto em 2020 por um ataque de drone realizado pelos EUA no Aeroporto Internacional de Bagdá, no Iraque – substituindo-a por uma lógica que transforma as vítimas da repressão nos novos mártires. A substituição de slogans religiosos pelos emblemas monárquicos, o leão e o sol, que figuravam no centro da bandeira do Irã durante a Dinastia Pahlavi, de 1925 a 1979, sinaliza que o contrato social teocrático foi rescindido pela base. A elite iraniana agora governa sobre um campo de batalha, onde o blackout da Internet e a repressão violenta apenas radicalizam os manifestantes, ameaçando converter a dissidência em guerra civil.

Os EUA utilizam-se da fragilidade do clero que governa o Irã, provocado pela atua convulsão interna no país, para forçar o Regime a aceitar exigências críticas, relativas ao fim do programa nuclear iraniano, ao desarmamento de mísseis balísticos e à extinção da rede de proxies regionais do Irã, que formam o denominado Eixo da Resistência. No entanto, os EUA não desejam a queda do Regime iraniano, pois não querem se envolver numa demorada e onerosa reconstrução do Estado iraniano, como se viram obrigados a fazer no Iraque. Preferem preservar a estrutura do Estado iraniano, para garantir um interlocutor que possa cumprir o acorde de submissão.

Diante da pressão externa, exercida pelos EUA, e do ódio provocado pela repressão interna, é possível que a burocracia e setores menos ideológicos do exército regular, o Artesh, responsável pela defesa da integridade territorial e das fronteiras da nação, concluam que a submissão às exigências de Washington é o único meio de evitar o seu próprio extermínio, decidindo tomar o poder, dissolver o "Imamato" (o conselho de clérigos) e estabelecer uma junta militar nacionalista e secular para gerir o Estado, eliminando o carácter teocrático do atual Regime, que gera o ódio popular, mas mantendo a ordem através de uma autocracia militar que aceitaria encerrar os programas nuclear e de mísseis, desmantelar a rede de proxies e entregar cabeças ultra-radicais do Regime em troca de um pacote de incentivos econômicos e financeiros desenhado para oferecer ao Estado iraniano uma via de sobrevivência em troca da renúncia definitiva às suas ambições nucleares e regionais.

Uma outra possibilidade é que, prevalecendo a Guarda Revolucionária do Irã, o IRGC - Islamic Revolutionary Guard Corps ou Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, idealizado para proteger o Regime contra ameaças internas e golpes de Estado, acreditando que, se cederem na questão dos mísseis e dos proxies, serão levados a tribunais internacionais ou massacrados pela multidão, decidam pela resistência às pressões externas, exercidas pelos EUA, ainda que isso leve ao isolamento total do país, dando seguimento à repressão para sufocar o movimento ocasionado pelo ódio interno. Neste cenário, a repressão tornar-se-ia absoluta, a economia seria reduzida ao nível de subsistência e o país aceitaria a pobreza extrema em troca da sobrevivência da sua elite, o que se constituiria em um cenário instável a longo prazo, segundo as lições de Machiavelli.

Pode, todavia, ocorrer um terceiro cenário, ainda mais caótico, onde nem o Regime conseguiria governar pelo medo, nem a oposição lograria tomar o poder central. Neste cenário, o ódio impediria a reconciliação e o regime fragmentar-se-ia. As minorias étnicas (Curdos, Baluches, Azeris) aproveitariam o vácuo de poder para buscar autonomia, o país mergulharia num conflito civil de atrito, uma guerra interna onde nenhuma das partes possui força suficiente para obter uma vitória decisiva e imediata, o que resultaria em um embate prolongado de desgaste mútuo. Nesta hipótese, que levaria a uma partição de facto do território iraniano em zonas de influência, os EUA poderiam se ver forçados a intervir não para mudar o regime, mas para pacificar áreas nucleares sensíveis.

O Regime teocrático de Teerã vê-se diante da sentença inescapável de Machiavelli, que vaticina ser possível governar sem ser amado, mas é impossível governar sendo odiado.