Portal O Dia

Coco babaçu vira ferramenta de aprendizagem para a Educação Infantil no Piauí

Aprender por meio de elementos que refletem a cultura e ancestralidade. É assim que as crianças da Creche Municipal Professora Sueli, no município piauiense de Francinópolis, tem trabalhado o processo cognitivo dos bebês de uma turma de berçário. Elas são netas quebradeiras de coco que passaram realizar atividades com o coco babaçu em sala de aula.

O objetivo é estimular a capacidade sensorial e fazer com que as crianças aprendam desde cedo sobre a própria história.

Divulgação/Gov. do Piauí
Coco babaçu vira ferramenta de aprendizagem para a Educação Infantil no Piauí

A ideia surgiu durante os acompanhamentos pedagógicos. Especialistas identificaram a necessidade de fortalecer o vínculo da cultura local com o currículo da Educação Infantil. Embora o coco babaçu faça parte da história, da economia e da identidade de Francinópolis, o elemento ainda aparecia pouco nas experiências vividas pelas crianças.

Disso, nasceu o projeto Dona Maria e as Descobertas do Coco Babaçu. A iniciativa foi criada para aproximar bebês e crianças pequenas das pessoas, saberes e práticas que constituem a identidade do município.

Aplicada pela pedagoga Galbi Pereira da Silva, que também é filha de uma quebradeira de coco, a prática começou com oito crianças e deve ser expandida no próximo semestre. Galbi explica que a maior riqueza desse projeto está em compreender que a aprendizagem começa pelo lugar onde a criança vive.

“Quando a criança conhece aquilo que faz parte da vida da sua comunidade, ela começa a construir pertencimento. Ela deixa de ser apenas observadora para tornar-se participante da cultura local. Esse projeto foi todo moldado para refletir a realidade dessas crianças”, diz.

Reprodução/O Dia TV
Coco babaçu vira ferramenta de aprendizagem para a Educação Infantil no Piauí

A experiência contempla múltiplos saberes e desperta a curiosidade, os sentidos e pertencimento cultural. Entre as atividades aplicadas, houve demonstração da extração do óleo, criação de musical, oficina de pintura em carvão feito a partir do coco babaçu e uma roda de conversa com dona Maria de Jesus Bezerra da Silva, uma das quebradeiras mais tradicionais da cidade, que levou o saber popular para a sala de aula.

“Notamos que as crianças demonstram muita curiosidade e ficam animadas em explorar as diversas possibilidades que o futuro apresenta. Estamos empolgados em ampliar o projeto e já existe o planejamento de criar um cordel com base na trajetória de vida da Dona Maria de Jesus", acrescentou Galbi Pereira.

O projeto Dona Maria e as Descobertas do Coco Babaçu também conecta o território por meio da Educação para as Relações Etnorraciais (ERER), colocando a criança no centro do planejamento pesagógico.

Promoção da equidade

A promoção da equidade é o pilar central do projeto desenvolvido em Francinópolis e reflete diretamente o tema do Seminário Nacional pela Alfabetização 2026, que “Avançar com equidade”. A integrar a Educação para as Relações Etnorraciais e conectar o currículo ao território, a iniciativa garante que crianças de comunidades tradicionais, como os netos de quebradeiras de coco, tenham sua história e identidade valorizadas no ambiente escolar desde o berçário.

Essa abordagem prática busca combater desigualdades raciais e territoriais, alinhando-se ao compromisso da Coalizão Pré-escola com o desenvolvimento integral e a garantia de que os avanços educacionais cheguem a todas as crianças, independentemente de sua origem socioeconômica ou localização.

É por meio da colaboração e de ideias inovadoras, como unir o ensino da Educação Infantil à cultura do coco babaçu, que o Piauí vem enfrentando os desafios da alfabetização.

Outro exemplo é a implementação da Coalizão Pré-escola, iniciativa da Associação Bem Comum e de outras seis organizações comprometidas com a causa da primeira infância (Fundação Bracell, Fundação Itaú/Itaú Social, Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Van Leer Foundation, Instituto Natura e VélezReyes+), que tem atuado para que o Programa Piauiense de Alfabetização na Idade Certa (PPAIC) alcance os resultados almejados.

A coalizão trabalha em regime colaborativo nos 224 municípios do Estado, estreitando o diálogo entre lideranças estratégicas. Uma das principais ações executadas foi a aplicação da Escala de Avaliação de Ambientes de Aprendizagem (EAPI) em 15 municípios piauienses, contemplando 440 turmas de pré-escola e analisando de perto o dia a dia das salas de referência. A partir das evidências colhidas pela EAPI, um plano de ação pactuado com a Secretaria de Estado da Educação do Piauí (SEDUC-PI) foi fechado no último mês de fevereiro.

As medidas preveem o fortalecimento da governança e o apoio de consultorias especializadas para múltiplos eixos. O leque de iniciativas inclui a formação continuada de professores e gestores escolares, auxílio técnico na elaboração do plano de expansão do Compromisso Nacional da Qualidade e Equidade da Educação Infantil (Conaquei) e a revisão e qualificação da sondagem de aprendizagem das crianças na pré-escola.

"Garantir a vaga na escola é só o começo. O verdadeiro compromisso é com o desenvolvimento integral e que seja com a qualidade e a equidade a que cada criança piauiense", destaca Danielle Souza, coordenadora de Educação Infantil da Associação Bem Comum.