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Piauí na disputa pelo Oscar: ‘A Fabulosa Máquina do Tempo’ retrata encontros entre diferentes gerações de mulheres em Guaribas

Um documentário gravado no município de Guaribas, no Piauí, está entre os 15 filmes habilitados pela Academia Brasileira de Cinema para disputar a indicação do Brasil ao Oscar 2027 na categoria de Melhor Filme Internacional. A Fabulosa Máquina do Tempo, dirigido por Eliza Capai, acompanha meninas durante a passagem da infância para a adolescência, a partir de suas relações familiares, experiências e expectativas para o futuro. Em entrevista exclusiva ao Portal O Dia, a diretora falou sobre a construção da produção e a relação com Guaribas, iniciada ainda em 2013

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Piauí na disputa pelo Oscar: ‘A Fabulosa Máquina do Tempo’ retrata encontros entre diferentes gerações de mulheres em Guaribas

A escolha do representante brasileiro ainda não foi definida. Uma comissão formada por 15 especialistas volta a se reunir em 9 de setembro para selecionar seis produções que formarão a pré-lista. O filme escolhido será anunciado pela Academia Brasileira de Cinema em 16 de setembro.

Para Eliza Capai, a presença do documentário na seleção amplia a visibilidade da produção e das histórias retratadas. A diretora também avalia que o reconhecimento do cinema brasileiro em premiações internacionais tem ajudado a aproximar o público nacional das produções feitas no país.

“O cinema brasileiro vem vivendo um momento muito bonito de valorização a partir desse olhar externo e a partir desse olhar do Oscar. Um público muito grande do Brasil que não valorizava o cinema nacional, que muitas vezes tinha preconceitos, começa a ter conceitos muito mais positivos e consegue chegar nesses filmes com alta qualidade, com histórias belíssimas e muitas vezes com histórias que refletem a nós, refletem a nossa diversidade, os diversos Brasis que têm no nosso país”, afirmou.

Uma história que começou em 2013

A relação da diretora com Guaribas começou antes mesmo de A Fabulosa Máquina do Tempo existir como projeto cinematográfico. Em 2013, Eliza esteve no município durante uma investigação para uma agência de jornalismo investigativo sobre autonomia feminina e programas de transferência de renda.

A escolha por Guaribas ocorreu porque o município havia sido cidade-piloto e símbolo do Fome Zero e, posteriormente, do Bolsa Família. Durante a pesquisa, a cineasta percebeu diferenças entre as gerações de mulheres da cidade.

De um lado, estavam mães e avós que haviam crescido sem acesso a direitos básicos. Do outro, meninas que começavam a viver uma realidade marcada pelo acesso à alimentação, à escola e, posteriormente, às tecnologias.

“Em 2013 fica muito claro um choque geracional entre as mães, mulheres que cresceram sem direitos básicos, sem direito à comida, e as filhas que, além de comer, começavam a ter acesso a direitos básicos e constitucionais”, relatou Eliza.

A experiência despertou na diretora a curiosidade sobre como aquela transformação afetaria as gerações seguintes. Em 2021, ela voltou ao município para uma nova pesquisa e conheceu parte das meninas que posteriormente participariam do documentário.

A produção foi realizada em 2024, acompanhando uma geração que, além de frequentar a escola, cresceu com acesso ao celular e a referências de fora do município.

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Meninas conduzem a narrativa do documentário

A Fabulosa Máquina do Tempo acompanha um grupo de meninas durante a passagem da infância para a adolescência. A rotina delas envolve escola, família, cultos evangélicos, redes sociais, brincadeiras e planos para o futuro.

A produção partiu de uma oficina audiovisual com 15 meninas, entre 7 e 11 anos. Durante as atividades, elas aprenderam sobre entrevistas, conversaram entre si e entrevistaram mães e familiares. Parte dessas experiências foi incorporada à narrativa do filme.

O documentário também utiliza registros observacionais, acompanhando as participantes em situações do cotidiano. Outras cenas foram construídas com adereços e pequenas encenações, permitindo que as meninas transformassem em brincadeira assuntos discutidos durante as oficinas.

A proposta, segundo Eliza, era permitir que as próprias participantes conduzissem parte da história. “A gente entende que está conseguindo entrar no mundo delas e deixar elas conduzirem essa história. O trabalho incluía entrar o máximo possível no mundo delas e entender como elas criariam as cenas”, afirmou a diretora.

A máquina do tempo criada pelas personagens funciona como recurso para revisitar histórias familiares e imaginar possibilidades para o futuro. A partir desse elemento, o filme aborda temas como diferenças de gênero, casamento, desigualdade, religião, medo da morte e os desafios da passagem para a adolescência.

A equipe também teve atenção à forma como as meninas seriam apresentadas no documentário, buscando evitar que a exposição diante das câmeras pudesse gerar consequências negativas para a imagem das participantes.

De Guaribas para festivais internacionais

Antes de chegar à seleção brasileira do Oscar, A Fabulosa Máquina do Tempo já havia percorrido festivais internacionais. A estreia ocorreu em Berlim, na mostra Generation Kplus, voltada ao público infantil. Depois, a produção passou por eventos na China, Grécia, México, Uruguai e Colômbia.

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A estreia ocorreu em Berlim

Em Berlim, três meninas que participaram do filme viajaram com a equipe e tiveram a oportunidade de ir ao cinema pela primeira vez. Para Eliza, a experiência também provocou mudanças na maneira como algumas delas passaram a enxergar os próprios sonhos.

“Eu sinto que, a partir desse movimento de se verem de fora, existe uma mudança na forma como elas se enxergam e como veem as possibilidades de futuro”, disse.

O documentário também foi exibido em Guaribas, em uma sessão pública que reuniu mais de 600 pessoas. As participantes puderam assistir ao resultado junto às famílias, amigos e outros moradores do município.

Filme busca chegar a mais pessoas

A Fabulosa Máquina do Tempo continua em cartaz em algumas cidades brasileiras e terá exibição prevista no Canal Brasil e em sua plataforma de documentários. A equipe também iniciou uma campanha para ampliar o acesso ao filme.

Pessoas interessadas podem organizar sessões coletivas gratuitas, com pelo menos cinco participantes, seguidas de um debate sobre algum dos temas abordados na produção. A iniciativa, segundo a diretora, considera as dificuldades de acesso ao cinema no Brasil, especialmente para documentários nacionais.

“Poucas cidades no Brasil têm cinema e, desses cinemas, documentário brasileiro tem muito poucos horários, muito poucos dias em cartaz. Mesmo nessas cidades que têm cinema, poucas pessoas têm acesso econômico ao cinema”, explicou.

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Filme busca chegar a mais pessoas

A proposta permite que o filme seja exibido gratuitamente em espaços como salas de aula, universidades, cineclubes ou mesmo em casa, desde que a sessão reúna pelo menos cinco pessoas e seja seguida de uma discussão sobre a produção.

Para Eliza, a iniciativa pode ajudar o documentário a alcançar públicos que ainda não tiveram contato com a história das meninas.

“Eu espero que com isso ele consiga chegar em todas as pessoas que tenham a vontade de conhecer essas histórias, que falam de temas duros, que falam de tema difícil, mas que têm uma leveza, um humor e um sabor agridoce que, acompanhando as sessões, tem encantado muita gente.”

A seleção brasileira para o Oscar ainda terá outras etapas. Após o anúncio previsto para 16 de setembro, o filme escolhido seguirá para a disputa internacional da premiação, cuja cerimônia está marcada para 14 de março de 2027.