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Perspectiva 2026: O futuro da cultura no Piauí passa pela valorização das festas populares

As manifestações culturais do Piauí estão presentes em cada região do estado, seja nas tradicionais esculturas de cerâmica do bairro Poti Velho, na carne de sol de Campo Maior, referência gastronômica piauiense, no sabor adocicado da cajuína, reconhecida como patrimônio cultural brasileiro, na obra de Torquato Neto, um dos nomes mais importantes da poesia e da música nacional, ou ainda nos blocos tradicionais de carnaval e no Corso de Teresina, que já figurou no Guinness Book.

Reprodução
Perspectiva 2026: O futuro da cultura no Piauí passa pela valorização das festas populares

Essas manifestações representam experiências que podem ser vividas, sentidas e tocadas, reforçando o sentimento de pertencimento e a identidade dos piauienses com seu lugar de origem. Ao mesmo tempo, contribuem para a preservação da memória cultural do estado, garantindo que costumes, histórias e saberes permaneçam vivos entre as novas gerações.

Apesar dessa riqueza, artistas locais enfrentam dificuldades para ocupar espaços de diálogo e decisão quando o tema é a gestão cultural. Produtores e agentes culturais muitas vezes não se sentem representados e buscam atuar de forma mais independente, livres de interferências políticas. O carnaval é um dos exemplos mais emblemáticos dessa resistência: alvo de sucessivas tentativas de desmonte pelo poder público, ele sobrevive principalmente graças à mobilização da própria sociedade.

O sociólogo e produtor cultural Messias Júnior traçou um panorama da cultura piauiense e das perspectivas do setor para 2026. Segundo ele, a cultura representa a identidade do povo, como demonstram os blocos carnavalescos de Teresina, que resistem ao tempo. “O bloco do Paçoca fará 32 anos em 2026. É uma festa popular com grande mobilização da população do bairro Saci, na zona Sul de Teresina. Surgiu como uma brincadeira dos nossos pais, ainda na década de 1980, quando o bairro foi inaugurado, inclusive com um memorial”, afirmou.

Para Messias Júnior, as políticas públicas voltadas à cultura ainda são insuficientes. Ele avalia que 2025 foi marcado por um “boom” cultural, impulsionado por leis como Aldir Blanc e Paulo Gustavo, além da atuação do Ministério Público. No entanto, o estado ainda precisa avançar na construção de políticas permanentes, que ultrapassem interesses pontuais de governos.

“O carnaval, que é uma grande festa popular e agrega diversas expressões culturais, vive um declínio em Teresina. Em 2026, completamos dez anos sem desfile de escolas de samba. O Corso, que já foi o maior do mundo, praticamente deixou de existir. E os blocos tradicionais, que reuniam centenas de pessoas nos bairros, estão diminuindo ou restritos a poucas apresentações”, lamenta.

O sociólogo destaca ainda a ausência de políticas que aproveitem as festas populares como vetor de geração de emprego e renda. Ele cita dados nacionais que apontam que 3,11% do PIB é resultado da economia criativa. “A cada R$ 1 investido, R$ 0,60 retorna ao poder público. Não é gasto, é investimento, mas isso ainda não é compreendido pelos gestores”, pontua.

Tomaz Silva/Agência Brasil
Perspectiva 2026: O futuro da cultura no Piauí passa pela valorização das festas populares

Criado em 2022, o movimento “Ter Carnaval” busca proteger essa manifestação cultural e já obteve avanços. A expectativa é que, em 2026, seja efetivada a Lei Manoel Messias, que prevê a criação de uma comissão permanente para a organização do carnaval.

“Defendemos uma política pública construída por três setores: agremiações carnavalescas, iniciativa privada e poder público, dialogando com a sociedade para definir o modelo mais adequado para Teresina”, afirma.

Atualmente, a capital conta com dois projetos de escolas de samba: Caprichosos do Pirajá e Brasa Samba. Para Messias Júnior, manter o samba vivo por meio de eventos frequentes ajuda a preservar essa tradição na memória coletiva. O fortalecimento das instituições culturais, produtores e artistas também é essencial para ampliar o acesso a recursos e editais.

Segundo ele, a baixa representatividade artística na política contribui para a falta de incentivos e visibilidade do setor cultural. “A cultura é transversal e estratégica. Precisamos fortalecer a economia criativa e ampliar a representação nos espaços de poder, como assembleias, câmaras e o Congresso. Acredito que, a partir das mobilizações dos últimos anos, surgirão alternativas populares nas próximas eleições”, analisa.

Para que a cultura piauiense siga viva e atuante, Messias Júnior defende o fortalecimento de sindicatos de artistas, agremiações carnavalescas, grupos de teatro e demais coletivos culturais. “Os artistas do Piauí precisam se organizar e se fortalecer coletivamente”, conclui.


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