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Mães atípicas com filhos autistas: sobrecarga, falta de apoio e desafios diários

Recentemente, a história da jovem Mariana Ferreira, da cidade de Bacabal, no Maranhão, viralizou nas redes sociais, ao contar a rotina dela e de seu filho autista. Os relatos trouxeram à tona uma realidade vivida por milhares de mulheres no Brasil: a sobrecarga física, emocional e financeira enfrentada por mães atípicas. Em Abril Azul é celebrado o mês de conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), data que reforça o cuidado com a pessoa autista, mas também com aqueles que cuidam.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 70 milhões de pessoas são autistas no mundo. Entretanto, por trás desses números, há milhares de famílias, especialmente mães, que lidam diariamente com desafios diários, que vão muito além do diagnóstico.

Marta Lopes, mãe atípica de um jovem de 21 anos, conhece bem essa realidade. Para ela, ser mãe já não é uma tarefa fácil e, quando se é mãe atípica, essa realidade tem um peso ainda maior. Ela explica que, apesar do avanço na informação e no diagnóstico, ainda há muitos obstáculos a serem enfrentados.

Hoje tem mais informação, a gente sabe por onde buscar ajuda. Mas ainda tem mães que passam anos na fila esperando um diagnóstico ou uma terapia. E quando conseguem, muitas vezes não têm condições de pagar

Marta Lopesmãe atípica

Além disso, há outros desafios, como o preconceito e a falta de apoio. Segundo Marta, muitas vezes, isso começa dentro da própria família. Quando a aceitação não acontece em casa, torna-se ainda mais difícil fazer com que a sociedade também aceite. “O suporte familiar é fundamental não apenas para o desenvolvimento da criança, mas também para o equilíbrio emocional da mãe. A família precisa entender, participar, ajudar. Tem mães que não têm ninguém. E isso pesa muito”, diz.

E essa realidade se agrava ainda mais para mães solo, que assumem sozinhas todas as responsabilidades do filho autismo, além das outras “Muitas vezes, a mãe larga o emprego para cuidar do filho e o pai continua trabalhando, ou até abandona. E aí fica tudo para ela: o cuidado, o emocional e o financeiro”, explica.

Arquivo pessoal
Marta Lopes, mãe atípica do João, 21 anos

A imagem da “mãe guerreira”, frequentemente associada às mães atípicas, também é questionada por Marta. Segundo ela, a necessidade constante de aparentar força pode levar ao adoecimento emocional e, dentre os principais impactos estão ansiedade, depressão e isolamento socia

“As pessoas veem a gente como forte, invencível, mas ninguém quer ser essa mãe, porque os desafios são muitos. Você quer ser forte o tempo todo, não quer chorar, não quer fraquejar, mas isso vai acumulando e uma hora explode. A gente deixa de viver, de se cuidar, de sair. Vai se anulando. Não é mais mulher, não é mais esposa, é só mãe. E isso pesa muito”, relata.

Quem cuida de quem cuida?

Diante disso, Marta Lopes enfatiza que as mães devem tentar manter, na medida do possível e de suas lutas, o autocuidado e a busca por apoio psicológico. Pensando nisso, ela e outras mães criaram o projeto “Cuidar de Quem Cuida”, voltado para mães atípicas em situação de vulnerabilidade emocional, oferecendo atendimentos psicológicos gratuitos, individuais e em grupo.

“Se a mãe não estiver bem, como ela vai cuidar do filho? A gente precisa se cuidar também. Já atendemos mães em crise, pedindo socorro. Muitas chegam esgotadas, sem dormir, sem se reconhecer. E, com o acompanhamento, vão voltando a se enxergar como mulher, como pessoa

Marta Lopesmãe atípica

Além do apoio profissional, a união entre mães também é vista como essencial. “Nós mães precisamos nos apoiar, nos fortalecer. Não é para competir, é para ajudar. A gente precisa se levantar juntas”, afirma Marta.

Marta lembra que muitas dificuldades ocorrem, especialmente, por conta da falta de políticas públicas e do acessos atendimentos. Ela cita que muitas mães não conseguem a emissão do laudo, o que impossibilita as terapias. Com uma grande demanda de atendimentos e pouco suporte, muitas famílias, sobretudo as mães, se veem de mãos atadas para ajudar os filhos.

O projeto “Cuidar de Quem Cuida”, bem como outras ações, são desenvolvidos na Associação de Mielomeningocele e/ou Hidrocefalia de Teresina (AMH) foi fundada em 2002, oferecendo voluntariamente atendimento a crianças e mães atípicas. Atualmente, há mais de 230 famílias cadastradas. A associação AMH fica localizada no bairro Piçarra, zona Sul de Teresina e tem como telefone para contato o (86) 99992-2520.


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