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Você tem medo de dirigir? Problema é multifatorial e pode ser reflexo de traumas

No Piauí, mais de 773 mil pessoas estão habilitadas a dirigir, mas nem todos exercem esse direito por conta do medo de estar à frente de um volante ou de pilotar uma moto. Mas afinal, porque isso acontece?A resposta não é simples. O medo de dirigir, também conhecido como amaxofobia em casos mais intensos, envolve fatores emocionais, experiências passadas e até influências familiares. Para muitos, não se trata apenas de aprender a conduzir um veículo, mas de enfrentar bloqueios internos que impedem o avanço.

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Medo de dirigir em quem já tem habilitação é um problema mais comum do que se imagina.

Foi assim com a condutora Jéssica Sales, que hoje dirige com segurança, mas já enfrentou um medo extremamente paralisante. Habilitada desde 2012, ela conta que o pavor de dirigir um carro era tão específico quanto limitante.

"Meu medo era de dobrar a esquina de casa com o carro. Eu tinha pavor, pesadelos com isso... Eu sonhava que o carro flutuava, que o carro voava. Eu ficava pensando: 'meu Deus, como é que as pessoas conseguem dobrar a esquina'. Meu pai me deu umas aulas, mas desistiu. Colegas da minha mãe tentaram me ensinar a dirigir, mas eu estancava muito. Na autoescola, eu até conseguia dobrar, porque eu me sentia segura com o instrutor. Mas eu tinha uma insegurança muito grande", lembra Jéssica.

Mesmo após três reprovações, ela persistiu. A virada veio com aulas específicas voltadas para quem tem medo de dirigir. "Eu lembro que eu paguei 180 reais. Foi a melhor coisa, o dinheiro mais bem pago que dei, porque o instrutor me deu autonomia. Ele fez eu me sentir confiante. Eu passei a conseguir subir a ladeira; se estancasse, eu daria a partida de novo. Eu fui superando o medo de dirigir".

Assis Fernandes / O DIA
Jéssica conta que pavor de dirigir um carro era tão específico quanto limitante.

Hoje, o comportamento de Jéssica é completamente diferente. "Hoje eu não tenho medo de nada. Eu nunca viajei dirigindo, mas se preciso for, vou até o Japão. Me sinto segura, principalmente dirigindo sozinha".

Medo que pode surgir por vários fatores

Segundo a psicóloga Nayse Monteiro, o medo de dirigir não tem uma única causa, é multifatorial.

"Tem várias causas e várias características. As autoescolas são muito preparadas para trabalhar a parte técnica. Porém, a parte emocional não é bem preparada para isso. Há um contexto social e familiar, e é muito difícil se desgarrar das experiências que uma pessoa vivenciou no âmbito familiar. Por exemplo: eu levo meu filho para a escola, e se a todo tempo eu vou falando coisas negativas para com o trânsito, acabo, sem perceber, passando isso pra ela [criança]. E acabo interferindo na maneira dela enxergar o trânsito", explica.

Ela também destaca o impacto das notícias e experiências negativas. "Quando a gente liga a TV, a gente vê muitos casos de acidentes. Temos muitas experiências negativas com o trânsito. E isso não ajuda na autoconfiança dos novos condutores", complementa.

João Allbert/ Reprodução
Dirigir exige muito mais do que habilidade técnica, exige controle emocional.

A especialista lembra que dirigir exige muito mais do que habilidade técnica. "De modo geral, o preparo emocional não é abordado. Mas quando a pessoa assume o volante, ela está lidando com pressão social, o medo de errar, responsabilidades sobre a própria vida, sobre a vida dos outros e, principalmente, a necessidade de tomar de maneira rápida decisões assertivas. Então, as autoescolas cumprem muito bem o papel técnico. Porém, existe algumas lacunas [no aspecto emocional] e que posso pontuar aqui como a primeira em relação ao estresse. Além do desenvolvimento de autoconfiança de maneira progressiva e. Enfrentar o medo após errar".

Ela reforça que o ato de dirigir envolve todo o processo psicológico básico, além de envolver atenção, memória, percepção, processamento e tomada de decisões, motivação, linguagem. "Tudo isso precisa estar preparado, estar alinhado para que a pessoa consiga exercer seu papel de condutor com segurança e preparo".

Como caminho para superar o medo, a psicóloga aponta a terapia e a exposição gradual. "A terapia é uma grande aliada, tendo em vista que ela consegue rastrear as origens dos pensamentos disfuncionais que fazem com que a ansiedade piore e acentue, além de que é possível se trabalhar da regulação emocional para que o condutor consiga fazer isso durante uma situação de estresse ou de crise no trânsito".

"E claro, uma exposição gradual é o ideal, para quem está começando a ter esse medo. Ou seja, não enfrentar de imediato o medo em lugares tão movimentados. É importante que a pessoa comece em um ambiente em que ela se sinta mais segura,".

Às vezes, temos que dar uma de psicólogo, diz instrutor

Na prática, quem está ao lado do aluno também faz diferença. O instrutor Carlos Alberto, com 16 anos de experiência, afirma que traumas e influências familiares estão entre os principais fatores que causam o medo de dirigir. "O aluno tá na metade do curso comigo e o pai diz: 'vamos dar uma volta'. Quando ele diz isso, já cria um bloqueio e já começa a interromper o processo. E se a pessoa errar na frente do pai, às vezes ele diz: 'você não está aprendendo coisa nenhuma'", exemplifica o instrutor.

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Carlos Alberto, instrutor de autoescola há 16 anos.

Quando ele percebe que o aluno está com medo, o trabalho do instrutor tem que ir além de ensinar a dirigir. "Primeiro, a gente senta numa mesa e conversa com o aluno; às vezes vejo o medo nos olhos deles. E aí a gente dá uma de psicólogo. Eu peço para a pessoa jogar toda a confiança em mim, abaixo de Deus. Começo a transmitir a segurança, a confiança. Depois, vamos dirigindo devagar, em ruas isoladas com menor tráfico, gradualmente, até ele conseguir a segurança", explica Carlos.

Casos de superação são o combustível para o instrutor seguir ajudando pessoas a perderem o medo de dirigir. "Eu tive uma aluna que chegou até mim com muito medo de dirigir. E há pouco tempo atrás eu a vi, e ela me apresentou o aluno dela. Hoje ela é instrutora de trânsito e tira o medo de outras pessoas", comemora, orgulhoso.

A encarregada administrativa financeira Rute Pereira conhece bem essa realidade. Prestes a fazer a prova do Detran-PI para as categorias A e B, ela ainda enfrenta o medo após um acidente de moto. "Eu tive um acidente de moto que criou em mim um trauma de pilotar. Para mim foi bem complicado, porque isso já faz uns 7 anos atrás, até hoje eu tenho esse medo de pilotar", desabafa a instrutora.

Assis Fernandes / O DIA
"Rindo de nervosa": Rute não esconde traumas, mas tenta superar o medo.

Para conseguir seguir em frente, ela precisou de aulas extras e agradece o apoio do instrutor Carlos.

"O instrutor foi muito bacana, muito bom, paciente, teve muita paciência comigo". Rute segue determinada e pretende vencer de vez o medo nesta quarta-feira (15), quando ela vai fazer o teste do Detran-PI pela primeira vez, buscando a aprovação. Boa sorte, Rute!"

Assis Fernandes / O DIA
Acompanhamento de um profissional especializado é fundamental para quem quer superar o medo de dirigir.

Amaxofobia: quando o medo vira transtorno

Em alguns casos, o medo de dirigir pode evoluir para a amaxofobia, um transtorno caracterizado pelo medo irracional e paralisante de conduzir ou até mesmo estar dentro de um veículo em movimento.

A condição afeta cerca de 6% dos condutores habilitados e é mais comum em mulheres. Entre os principais sintomas estão tremores, sudorese, falta de ar, tensão muscular e batimentos acelerados. No campo psicológico, surgem pensamentos como perder o controle do carro, provocar acidentes ou travar o trânsito. O tratamento costuma envolver psicoterapia, especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental, aliada a aulas práticas. Se identificar esses sintomas, não hesite: busque tratamento!

Técnicas para vencer o medo:

Superar a insegurança e o medo no volante é parte de um processo gradual. Ela indica algumas técnicas que podem ajudar o motorista a ter um relacionamento melhor com o trânsito:

• Exposição progressiva: começar com pequenos trajetos em horários mais tranquilos e aumentar a dificuldade aos poucos;

• Respiração e autocontrole: antes de ligar o carro, o condutor pode fazer exercícios de respiração profunda para reduzir a ansiedade;

• Simulações acompanhadas: treinar em locais seguros, com apoio de instrutores preparados para lidar com a insegurança;

• Reforço positivo: reconhecer cada conquista, mesmo que pareça pequena, ajuda a fortalecer a autoconfiança;

• Autoanálise: refletir sobre as situações que lhe despertam mais medo e aprender a lidar com elas de forma prática e consciente.


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