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Sob a terra, vidas que ainda valem pouco

A história da mineração é também uma história escrita com sangue. Por trás do carvão que alimentou indústrias, do ouro que atravessou séculos como símbolo de riqueza, e dos minerais hoje indispensáveis à tecnologia, existem trabalhadores que, não raras vezes, descem às profundezas da terra submetidos a condições precárias, insalubres e até desumanas.

 

Algumas tragédias ajudam a dimensionar esse preço. Em 1942, o desastre da mina de carvão de Benxihu, na China ocupada pelos japoneses, matou mais de 1.500 pessoas, sendo considerado o mais letal da história da mineração. Décadas antes, em 1906, uma explosão nas minas de Courrières, na França, havia tirado a vida de mais de mil trabalhadores. Em 1914, outra catástrofe, na mina de Hōjō, no Japão, deixou centenas de mortos. Mais recentemente, em 2014, o desastre de Soma, na Turquia, matou 301 mineiros.

 

Mudam os países, as épocas e as dimensões das tragédias, mas algumas circunstâncias permanecem assustadoramente semelhantes, como a falta de ventilação, acúmulo de gases, desmoronamentos, poeira tóxica, jornadas extenuantes, equipamentos inadequados e fiscalização insuficiente. Os riscos tornam-se ainda maiores nas pequenas explorações e na mineração informal, onde frequentemente a pobreza empurra trabalhadores para ambientes sem condições mínimas de segurança.

 

Não se pode dizer, entretanto, que faltem normas ou conhecimento sobre esses riscos. Em 1995, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) adotou a Convenção nº 176 sobre Segurança e Saúde nas Minas, importante marco internacional que estabeleceu princípios de prevenção, fiscalização, treinamento e participação dos trabalhadores na adoção de medidas de segurança. Mais de três décadas depois, porém, os acidentes continuam ceifando vidas. A distância entre a norma e a realidade evidencia que convenções e leis, embora indispensáveis, pouco representam quando não acompanhadas de fiscalização efetiva, responsabilidade dos empregadores e condições dignas de trabalho.

 

A tragédia ocorrida neste mês na República Centro-Africana é um retrato brutal dessa realidade. Mais de cem pessoas morreram após o desabamento de uma mina artesanal de ouro em Zamboye, no oeste do país. Muitos outros trabalhadores ficaram feridos ou soterrados, enquanto as equipes de resgate enfrentavam a falta de equipamentos adequados. Em regiões onde o desemprego e a pobreza deixam poucas alternativas, arriscar a própria vida sob a terra torna-se, para muitos, uma questão de sobrevivência.

 

Pouco depois, outra tragédia atingiu a América Latina. Em Policarpa, no departamento colombiano de Nariño, o desabamento de uma mina ilegal de ouro matou 13 trabalhadores e deixou sete feridos. Autoridades apontaram que a extração inadequada teria comprometido a estrutura do terreno.

 

Essas mortes, separadas por continentes, mas unidas pela precariedade, obrigam-nos a uma pergunta incômoda: até quando aceitaremos que a riqueza retirada das profundezas da terra custe a vida daqueles que a trazem à superfície? Nenhum metal, por mais precioso que seja, pode valer mais que um trabalhador. Quando a pobreza, a omissão e o lucro se sobrepõem à segurança humana, o verdadeiro desabamento não ocorre apenas dentro da mina; ocorre também nos valores da sociedade.