Portal O Dia

Brasil, país do futuro?

Brasil, País do Futuro (Brasilien: Ein Land der Zukunft) é o título da obra do escritor judeu-austríaco Stefan Zweig, que, fugindo do nazismo, chegou ao Brasil em 1941. A expressão se difundiu e não há brasileiro que não a tenha ouvido ao menos uma vez. Especialmente em períodos eleitorais, alguns políticos recorrem a ela para exaltar um patriotismo que, muitas vezes, pouco ultrapassa o discurso. Afinal, quantos discursos políticos a frase de Zweig não sustentou ao longo da nossa história?

 

Há, porém, uma pergunta simples capaz de desmitificar o sentido que essa expressão adquiriu: até quando o Brasil continuará sendo um país do futuro? Mais de 80 anos depois da publicação da obra de Zweig, que projetava para o Brasil um futuro de autonomia e de capacidade para bastar-se a si mesmo, já não teria transcorrido tempo suficiente para que esse vaticínio se concretizasse? Se o futuro nunca chega, de que futuro estamos falando?

Em vez de continuar recorrendo à frase de Zweig como uma espécie de promessa permanente, os políticos deveriam apresentar propostas claras e viáveis para que o Brasil deixe de ser apenas uma expectativa de futuro e passe a construir, no presente, o país que pretende ser.

 

Uma das tarefas mais importantes para isso seria fazer uma reforma política. Mas o que significa, de fato, uma reforma política em um país que pretende ser do futuro?

 

Antes de qualquer mudança institucional, é preciso que exista disposição genuína para realizá-la. E esse querer não pode ser falacioso, desonesto ou movido por interesses particulares. Deve ser um querer profundo, acompanhado do desejo efetivo de fazer a coisa certa e de construir um país melhor. É nesse sentido que me vem à lembrança a paixão a que Max Weber se refere em Escritos Políticos (2014), ao tratar das qualidades que devem orientar o homem político: a paixão pelo país, pela pátria, pelos brasileiros.

 

A primeira premissa, portanto, é o querer. Mas não um querer mesquinho ou egoísta. Um querer que coloque o interesse público acima da conveniência pessoal e que reconheça a política como instrumento de transformação da sociedade. A segunda premissa é a vontade. Não uma vontade circunstancial, mas a vontade de decidir, de estabelecer objetivos e de persegui-los com determinação. É essa vontade que permite planejar, construir um projeto e estabelecer um caminho de longo prazo, sem abandoná-lo a cada dificuldade ou conveniência do momento.

 

Sem essas duas premissas, querer e vontade, qualquer reforma corre o risco de se transformar apenas em mais um discurso.

 

Sei que a tarefa de promover uma verdadeira reforma política em um país como o Brasil é hercúlea. Mas é preciso começar. E começar de maneira firme e decidida, reconhecendo que mudanças efetivas podem significar perda de espaço e de poder para aqueles que vivem da política ou que colocam interesses pessoais acima dos interesses do país e da sociedade. É justamente aí que está uma das maiores dificuldades: quem tem poder para reformar o sistema é, em grande medida, parte do próprio sistema que precisa ser reformado.

 

Ainda assim, a pergunta permanece: por que uma reforma política é tão necessária?

 

Porque a política não é um fim em si mesma. Suas escolhas produzem consequências concretas na vida das pessoas. São milhões de desempregados diante das dificuldades produzidas pela má condução da política e pela corrupção; milhares de pessoas que morrem à míngua nos hospitais públicos por falta de atendimento adequado, enquanto recursos destinados à saúde são mal geridos ou desviados; milhões de brasileiros sem acesso a uma educação capaz de lhes permitir compreender seus direitos e disputar oportunidades no mercado de trabalho.

 

Esses são apenas alguns exemplos de problemas que ultrapassam o campo do discurso e chegam à vida cotidiana. Por isso, a discussão sobre reforma política não pode ser reduzida a uma disputa sobre regras eleitorais, cargos ou espaços de poder. Ela precisa partir de uma questão maior: que tipo de país queremos construir e que tipo de política é necessária para torná-lo possível?

 

Se queremos, de fato, que o Brasil seja um país do futuro, precisamos começar a construí-lo no presente. Uma reforma política exige coragem para rever práticas, estruturas e interesses. Exige paixão pelo país e vontade de transformá-lo. Exige, sobretudo, que aqueles que exercem o poder estejam dispostos a reconhecer que a política deve servir à sociedade, e não o contrário.

 

Talvez essa seja a verdadeira provocação deixada pela frase de Zweig: não esperar indefinidamente pelo futuro, mas ter a coragem de construí-lo.

 

Qual é, afinal, o problema em fazer uma reforma política para construir o país do futuro?

Com a palavra, os políticos.