Nos últimos anos, o número de profissionais afastados do trabalho por problemas de saúde, especialmente relacionados à saúde mental, tem crescido de forma significativa e chamado a atenção. Dados do Ministério da Previdência Social (MPS) mostram que, entre 2021 e 2024, os afastamentos por burnout (síndrome do esgotamento profissional) aumentaram 493%. Somente em 2024, foram registrados 4.880 casos.
Ainda em 2024, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) concedeu 472,3 mil auxílios-doença relacionados a transtornos mentais, como depressão, ansiedade e outras síndromes. Já nos primeiros seis meses de 2025, os afastamentos por questões de saúde mental ultrapassaram 271 mil registros.
Os números acendem um alerta não apenas para a saúde dos trabalhadores, mas também para as condições oferecidas pelas empresas e para a efetividade das ações voltadas à qualidade de vida no ambiente corporativo. Nesse contexto, a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), atualizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) em agosto de 2024, determina que as empresas brasileiras passem a incluir a avaliação de riscos psicossociais na gestão de Segurança e Saúde no Trabalho (SST). A norma entra em vigor em 26 de maio de 2026. Apesar da exigência, muitas organizações ainda não se adaptaram completamente às novas regras.
A psicóloga organizacional e especialista em gestão de pessoas, Thalita Barbosa, explica que grande parte das empresas ainda está em fase inicial de adaptação. Segundo ela, ações pontuais, como palestras isoladas, não são suficientes para atender à norma nem para promover mudanças reais.
Além das palestras, é necessário identificar, avaliar e controlar os riscos ocupacionais e psicossociais. É preciso observar o controle do estresse e da sobrecarga mental, que estão diretamente ligados aos fatores que levam ao adoecimento
Na prática, segundo a especialista, as empresas precisarão mapear os riscos psicossociais dentro da organização e integrar a saúde mental à gestão da segurança do trabalho de forma contínua. “Não se trata apenas de cumprir uma fiscalização ou auditoria. Cuidar da saúde mental do trabalhador vai muito além de uma palestra. É preciso preparar as lideranças, oferecer treinamentos e mudar a forma de comunicação com o colaborador. Em vez de apenas cobrar, é necessário criar espaços de diálogo entre gestor e equipe”, explica.
Para Thalita, a capacitação das lideranças é uma das principais estratégias para reduzir os afastamentos. “São os líderes que estão no dia a dia com os colaboradores. Uma gestão de pessoas eficaz, aliada a lideranças preparadas, e não apenas a campanhas simbólicas, é o que realmente contribui para a redução dos índices de adoecimento mental”, ressalta.
Ela destaca ainda a importância de identificar sinais precoces de sofrimento emocional. “Esse líder consegue perceber quando um colaborador apresenta sinais de burnout ou depressão? Quando alguém começa a faltar, existe uma preocupação genuína em entender o que está acontecendo? É fundamental criar canais seguros de escuta e denúncia dentro da empresa, além de monitorar indicadores como afastamentos e rotatividade”, pontua.
Por fim, a especialista reforça que é preciso atuar sobre as causas, e não apenas sobre os efeitos. “Os efeitos aparecem como ansiedade, crises de pânico, depressão, queda da imunidade e até dores físicas, como enxaqueca e problemas gástricos. Mas, se trabalharmos as causas: revisando metas, cargas de trabalho, investindo na formação das lideranças, na comunicação, no feedback, na inteligência emocional e na criação de um ambiente psicologicamente seguro, é possível promover saúde mental, melhorar a qualidade de vida no trabalho e reduzir significativamente os afastamentos”, conclui.
Você quer estar por dentro de todas as novidades do Piauí, do Brasil e do mundo? Siga o Instagram do Sistema O Dia e entre no nosso canal do WhatsApp se mantenha atualizado com as últimas notícias. Siga, curta e acompanhe o líder de credibilidade também na internet.