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A Copa do Mundo vista por quem 'nunca viu o Brasil campeão'

Eles nasceram depois do penta e só conheceram o ‘quase’. Ainda assim, a cada quatro anos, a esperança ressurge, e eles seguem esperando ver a Seleção campeã pela primeira vez.

22/05/2026 às 15h00

22/05/2026 às 15h00

Há uma geração inteira de brasileiros que nunca viveu o som do apito final anunciando um título mundial, as buzinas atravessando a madrugada ou as superstições repetidas a cada jogo. Eles nasceram depois de 30 de junho de 2002, quando Ronaldo marcou dois gols contra a Alemanha, em Yokohama, e o Brasil conquistou o pentacampeonato no último mundial.

Logo depois foi uma sequência de capítulos mal resolvidos. Em 2006, a França de Zidane eliminou o Brasil nas quartas de final. Em 2010, a Holanda repetiu o roteiro. Em 2014, porém, a dor ganhou outra dimensão. O Brasil sediava a Copa do Mundo, Neymar carregava o peso simbólico de liderar a equipe como herdeiro de Pelé, e a semifinal contra a Alemanha começou com uma ausência dupla: o camisa 10 fraturado e o capitão Thiago Silva suspenso.

O que veio a seguir entrou para a história como o maior trauma do futebol brasileiro nas últimas décadas. O 7 a 1, transmitido ao vivo para um país inteiro, tornou-se a principal memória de muitos jovens que hoje têm entre 18 e 23 anos. Ainda crianças naquela semifinal, eles lembram do silêncio dentro de casa, da incredulidade dos adultos diante da televisão e das piadas que dominaram a internet à medida que o placar aumentava.

A sequência de eliminações continuou nos anos seguintes. Em 2018, a Seleção voltou a cair nas quartas de final, derrotada pela Bélgica. Em 2022, no Catar, a eliminação veio nos pênaltis contra a Croácia, depois de Neymar marcar um dos gols mais bonitos do torneio, e o time simplesmente sumiu.

Foram essas derrotas que moldaram a relação da geração pós-2002 com a Seleção Brasileira. Diferentemente de pais e avós, que cresceram associando a Copa do Mundo a títulos, ruas enfeitadas e confiança quase automática no hexacampeonato, esses jovens aprenderam a torcer em meio à frustração e à espera por uma conquista que nunca chegou. São cinco Copas sem título e uma memória afetiva construída mais pela pressão e pela decepção do que pela celebração. Ainda assim, a cada quatro anos, a esperança ressurge, inclusive para aqueles que, em 2026, assistirão à primeira Copa do Mundo da vida.

A Copa do Mundo vista por quem 'nunca viu o Brasil campeão' - (Tânia Rêgo/Agência Brasil) Tânia Rêgo/Agência Brasil
A Copa do Mundo vista por quem 'nunca viu o Brasil campeão'

O entusiasmo automático deu lugar à cautela, mas o ritual de assistir aos jogos, comentar escalações e acreditar que “agora vai” continuou atravessando as Copas. Para muitos jovens, apoiar o Brasil virou quase um exercício de insistência.

É o caso de Jonas Fernandes, estudante de Educação Física, de 21 anos, que mantém a confiança na Seleção mesmo sem ter vivido um título mundial. “Eu sempre sou confiante no Brasil. Em 2014, 2018 e 2022 eu achei que a Seleção ia ganhar”, afirma.

Ao lembrar momentos marcantes das Copas, Jonas não cita uma conquista histórica nem um gol decisivo em final. A memória que surge primeiro é a eliminação para a Croácia, no Mundial de 2022. “O Neymar fez o gol, mas depois o time foi para cima querendo ampliar o placar, mas mesmo assim não conseguimos. Acho que todo brasileiro lembra daquele jogo”, recorda.

Para a geração que nunca viu o Brasil campeão, cada Mundial é uma oportunidade de imaginar a conquista que ainda não aconteceu - (Assis Fernandes/O Dia) Assis Fernandes/O Dia
Para a geração que nunca viu o Brasil campeão, cada Mundial é uma oportunidade de imaginar a conquista que ainda não aconteceu

Se Jonas cresceu tendo as eliminações como principal referência, Valdeci Cardoso, de 68 anos, construiu uma relação completamente diferente com a Seleção. Ele pertence à geração que viu o Brasil conquistar títulos e transformar a Copa do Mundo em símbolo quase natural de grandeza nacional.

Na memória dele permanecem cenas de títulos e comemorações que atravessaram gerações. O passe de Pelé para Carlos Alberto Torres na final da Copa de 1970 contra a Itália, considerado um dos gols mais emblemáticos da história do futebol, e a comemoração de Romário e Bebeto em 1994, símbolo da conquista do tetracampeonato após 24 anos de espera.

Esses momentos ficam na memória da gente. São lembranças de Copa que eu nunca esqueci

Valdeci Cardoso68 anos

Agora, às vésperas da Copa de 2026, os dois compartilham a expectativa em torno da Seleção, ainda que de maneiras diferentes. Valdeci reconhece o entusiasmo provocado pela chegada do novo treinador, mas mantém cautela.

“O pessoal está com muita expectativa porque ele é um treinador vencedor, mas em clubes. Vejo muita gente acreditando nessa Copa por causa dele, só que Copa do Mundo é diferente. Eu espero que o Brasil ganhe, mas ainda fico em dúvida”, pondera.

Para quem já viveu títulos, a Copa do Mundo ainda é símbolo de orgulho e memória afetiva coletiva. - (Assis Fernandes/O Dia) Assis Fernandes/O Dia
Para quem já viveu títulos, a Copa do Mundo ainda é símbolo de orgulho e memória afetiva coletiva.

Jonas deposita a esperança no retorno de Neymar. Para ele, a presença do camisa 10 pode ser o fator decisivo para encerrar o jejum que acompanha sua geração desde o nascimento. “Com a volta do Neymar, acho que o Brasil ganha. A gente vai pra frente", afirma.

Entre lembranças de títulos e memórias de eliminações, Valdeci e Jonas representam gerações que aprenderam a torcer de maneiras diferentes. Quem viu o Brasil campeão hoje observa a Seleção com mais cautela. Já quem cresceu sem levantar uma taça ainda deposita esperança na promessa de que o próximo Mundial pode encerrar a espera.

A tradição não desapareceu, mas mudou de forma

Para a socióloga Bruna Mesquita, o Brasil continua sendo identificado como o país do futebol, mas a maneira de demonstrar essa relação mudou ao longo dos anos. A mobilização coletiva que ocupava ruas inteiras durante a Copa, com bairros pintados e vizinhos reunidos diante da televisão, passou a dividir espaço com encontros menores, em bares, casas e ambientes mais privados.

“A força cultural do futebol passou por mudanças na forma como é demonstrada. Ainda existe mobilização em torno da Seleção, principalmente em momentos como convocação, jogos decisivos e debates nas redes sociais”, explica.

Segundo ela, parte dessa transformação está ligada às mudanças no consumo de entretenimento e à fragmentação da atenção provocada pelas redes sociais. Se antes a experiência da Copa era quase totalmente coletiva e sincronizada, hoje ela também acontece em múltiplas telas, acompanhada de comentários em tempo real no Instagram, no X e em plataformas de transmissão ao vivo.

“Antes, as pessoas se reuniam nas ruas e assistiam juntas ao jogo. Hoje existe uma disputa pela atenção entre a transmissão e a segunda tela, usada para comentar a partida nas redes sociais”, afirma.

Desde 2014, a relação dos brasileiros com a camisa amarela se transformou, refletindo mudanças sociais e polarização política - (Assis Fernandes/O Dia) Assis Fernandes/O Dia
Desde 2014, a relação dos brasileiros com a camisa amarela se transformou, refletindo mudanças sociais e polarização política

Bruna também avalia que a polarização política contribuiu para alterar a relação de parte da população com a camisa da Seleção. Desde 2014, o uniforme amarelo passou a ser associado a disputas políticas que extrapolaram o futebol e reduziram seu papel como símbolo de unidade nacional.

“Em resposta a isso, muitas pessoas passaram a buscar versões alternativas da camisa ou modelos que remetessem à Seleção sem carregar associações políticas. É uma tentativa de recuperar a ligação da camisa com o futebol e com a identidade nacional”, analisa.

Mesmo diante dessas mudanças e da concorrência com outras modalidades e formas de entretenimento, a socióloga acredita que o futebol continua ocupando um espaço central na cultura brasileira. “Existe um legado histórico muito forte. O futebol hoje divide atenção com outras formas de consumo cultural, mas continua sendo um elemento importante da identidade brasileira”, conclui.

A taça que o pai viu o Brasil levantar e o troféu que o filho aprendeu a imaginar

Dentro da mesma casa, a Copa do Mundo pode significar coisas completamente diferentes dependendo da geração. Aerolino dos Santos, de 62 anos, e o filho, Mário Airon, de 20, cresceram torcendo pela mesma Seleção, mas construíram memórias muito distintas sobre o futebol brasileiro. Um viveu títulos e o outro cresceu ouvindo histórias sobre eles.

Aerolino pertence à geração que experimentou a Copa como um acontecimento coletivo de rua. A vizinhança se reunia, as calçadas eram enfeitadas e os foguetes começavam antes mesmo do apito final quando o Brasil estava na frente. A lembrança mais forte dele é o tetracampeonato de 1994. “Aquela Copa ficou marcada pela emoção das pessoas e pela tensão dos pênaltis”, lembra.

Mário cresceu em outro cenário, marcado pelo consumo fragmentado do futebol e pelas interações em tempo real nas redes sociais. Quando criança, acompanhava a movimentação dos adultos durante os jogos, mas ainda sem entender completamente o peso simbólico da Copa.

A primeira grande lembrança dele relacionada à Seleção é justamente a derrota para a Alemanha em 2014. “Lembro da expectativa da família, da movimentação nas ruas e da tristeza depois do jogo. Minha mãe chorando e os homens da família revoltados”, conta.

Mesmo com gerações diferentes na torcida, a Copa do Mundo continua unindo famílias brasileiras em torno da Seleção - ( José Cruz/Agência Brasil) José Cruz/Agência Brasil
Mesmo com gerações diferentes na torcida, a Copa do Mundo continua unindo famílias brasileiras em torno da Seleção

A diferença entre pai e filho não está apenas nas lembranças, mas na maneira de enxergar a própria Seleção. Aerolino acompanha a Copa com a memória de quem já viu o Brasil campeão. Mário, por outro lado, aprendeu a torcer convivendo apenas com expectativas interrompidas, embora ainda veja o Mundial como um evento diferente de qualquer outro do calendário esportivo. “A maioria dos jogadores da Seleção está nos maiores clubes da Europa. O Brasil nunca deixou de ter talento”, afirma.

Para muitas famílias, a Copa continua sendo um motivo de encontro. O que muda, de uma geração para outra, é a forma de acreditar. Mesmo assim, nesta sexta-feira (22), a 20 dias do Mundial, pais e filhos seguem unidos pela mesma esperança: ver o Brasil campeão de novo.


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Com supervisão de Ithyara Borges.
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