Aos 74 anos, o professor e engenheiro Matias Sales tem uma verdadeira história de superação para compartilhar. No currículo, são cinco ultramaratonas, sendo uma delas de 160 km, dez maratonas, 22 meias maratonas, cinco participações na Corrida de São Silvestre, dez corridas de trilha, cerca de 90 provas de 10 km e mais de 100 de 5 km. No início deste ano, o corredor descobriu um câncer de pele em estado avançado, com metástases no pulmão e no cérebro. Ele também convive com o Parkinson, mas nada disso o impediu de seguir correndo. Por toda a sua trajetória, no último domingo (16), seu Matias foi o grande homenageado no Circuito O Dia Corrida de Rua. E, para celebrar, ele fez justamente o que mais gosta: correr.
Seu Matias contou que tudo teve início em 2000, por curiosidade. "Eu sou uma pessoa que sempre gostei de desafio. E aí eu saía de madrugada para viajar, porque eu sou engenheiro rodoviário. Eu via as pessoas às cinco da manhã na rua, correndo. Poucas pessoas nessa época, mas sempre existiam as pessoas correndo. E aí eu achei interessante. Eu morava na zona Norte, no Mocambinho, e comecei a trotar. E aquilo foi me despertando, e eu notei que eu ficava o dia diferente, para melhor. E, no dia que eu fazia com a velocidade maior, eu notava que o meu peso reduzia", disse.
Após incluir a corrida na rotina, Matias demorou alguns anos até participar da primeira competição. A estreia ocorreu somente em 2007, quando ele disputou a Corrida Miguel Pereira, no Mocambinho. Na época, as corridas de rua ainda eram menos populares do que atualmente. A prova, no entanto, marcou o início de uma trajetória que seria construída ao longo de mais de duas décadas.
Um momento importante veio ainda em 2007, quando a Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (Semel), com apoio do Governo do Estado, criou uma seleção de atletas para disputar a tradicional Corrida de São Silvestre, em São Paulo. A escolha dos corredores levou em consideração o desempenho na Volta da Cajuína, evento que reunia atletas de diferentes municípios em Teresina. "E eu fui participar. Fiz 13 quilômetros de percurso em uma hora e onze. Eu achei que era ali que eu ia começar o meu hábito da corrida", destacou.
Depois da experiência na Volta da Cajuína, Matias decidiu que seu próximo objetivo seria participar da São Silvestre. "Passado um ano, eu ouvia muito falar sobre a São Silvestre e em 2008, passei um ano treinando para correr lá e fui. 15 quilômetros e 300 metros. Me dei muito bem. Comecei a enxergar o atletismo da corrida de rua. Porque o bom é esse, é você enxergar. E aí, a partir daí, eu corri maratona, meia maratona", disse.
A partir daí, os desafios foram aumentando. Matias passou a correr com um grupo de amigos da Pro Runner e começou a percorrer longas distâncias entre Teresina e Altos. Inicialmente, o objetivo era completar 21 km, mas o grupo logo decidiu ir além e alcançar os 42 km de uma maratona. "Eu fiz a primeira meia maratona e aí vi que, se treinasse mais, poderia ir mais longe, pois o segredo é treinamento", comentou.
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Cada vez mais envolvido com a corrida, seu Matias também passou a disputar provas em outras cidades. Entre elas, estavam competições em Fortaleza, no Ceará. Na mesma época, ele patrocinava seis atletas e costumava levá-los para as provas das quais participava. "Para onde eu ia, eu levava eles", disse. "E, em Fortaleza, tinha a maratona do Pão de Açúcar, do revezamento. Cada atleta corre 21km. Eu me adaptei muito bem. Levava esse grupo de atletas", complementou.
Foi nesse período que Matias conheceu um novo universo dentro da corrida: as ultramaratonas. "Qualquer prova acima de 42 quilômetros. E aí eu fiz a ultramaratona Teresina-Altos. Nós saímos daqui para correr 20 quilômetros em Altos. Você imagina sair correndo Teresina-Altos para correr 20 quilômetros lá. Saímos meia-noite da Ponte Estaiada, chegamos em José de Freitas às seis e meia da manhã, e aí corremos 20 quilômetros, de forma contínua".
A experiência serviu como porta de entrada para desafios cada vez maiores. Um dos mais marcantes foi uma ultramaratona de 24 horas realizada dentro de uma academia, em uma esteira. A iniciativa fazia parte de um desafio promovido em parceria com um atleta que percorreu todas as capitais brasileiras em busca de recursos para um hospital especializado no tratamento de crianças com câncer.
"Além de me chamar a atenção pela prova, que eu achei interessante, para tentar ajudar exatamente nessa forma do tratamento contra o câncer. E aí corri 85 quilômetros na esteira. Tenho uma medalha, tenho um troféu. Isso fez com que eu acreditasse na ultramaratona."
Depois da experiência, Matias continuou ampliando os próprios limites. "Depois nós fizemos Teresina-Altos-Teresina. Você imagina? Teresina-Altos, tudo bem, é mais complicado, porque é só a subida, mas dá a volta. Então a gente começa a fazer desafios", disse.
Um dos maiores desafios, porém, ainda estava por vir. Em 2015, Matias decidiu cumprir uma promessa feita a Santa Cruz dos Milagres. A ideia era sair de Teresina correndo e percorrer 160 quilômetros até o município. Ele reuniu outros quatro atletas para a empreitada.
"Eu resolvi fazer, pagar uma promessa em Santa Cruz dos Milagres, que, se eu conseguisse a graça, eu sairia de Teresina, correr 160 quilômetros. E assim eu fiz. Nós éramos um grupo de cinco atletas", comentou.
A distância foi percorrida em um desafio que exigiu preparo físico e resistência. Segundo Matias, o percurso foi feito de forma contínua, com apenas pequenas pausas para hidratação. "Você perguntaria: 'Mas foi contínuo?' Foi contínuo, porque nós tínhamos 10 minutos para hidratar a cada 10 quilômetros. Então, o tempo bruto foi 36 horas, e o tempo livre, 25 horas", destacou.
Mesmo sem caráter competitivo, Matias terminou o desafio na primeira colocação. Nos últimos 10 quilômetros, o grupo decidiu liberar cada atleta para seguir no próprio ritmo. "Não era uma prova competitiva, mas os últimos 10 quilômetros, seja feito à vontade de cada um, foi liberado. E aí eu saí na frente, cheguei em primeiro lugar", disse.
Para o corredor, a experiência representa mais do que uma marca esportiva. "Então eu me sinto feliz com essa graça de Deus, que a corrida de rua me trouxe muita vantagem. Saúde. Embora tenha cometido câncer, mal de Parkinson, mas eu me considero um cara que tem saúde", afirmou.
Além das longas distâncias, a rotina de Matias também passou a envolver musculação. Para ele, o fortalecimento é fundamental para quem pretende correr maratonas e ultramaratonas, mas precisa ser equilibrado com os treinos de corrida e os períodos de descanso. "Bom, para você correr uma maratona, uma ultramaratona, eu faço o seguinte: eu reduzo um pouco a musculação, porque o treinamento é muito forte. E a musculação ajuda muito. Você não pode sobrecarregar os músculos das pernas", comentou.
Atualmente, ele organiza a rotina entre três dias de musculação e três dias de corrida por semana, deixando um dia para descanso. O objetivo é fortalecer o corpo sem comprometer a recuperação necessária para os treinos de longa distância.
Para se preparar para uma maratona, Matias também utiliza os chamados "longões", aumentando progressivamente a distância percorrida aos sábados. O treinamento começa com percursos menores e evolui até distâncias superiores a 30 quilômetros antes da competição.
A rotina de preparação ganhou ainda mais importância depois que ele foi diagnosticado com Parkinson, em 2022. Segundo Matias, a doença tornou o aquecimento mais demorado, mas não o afastou das pistas. Pelo contrário: ele passou a dedicar ainda mais atenção à preparação antes das provas.
Na segunda edição do Circuito O Dia Corrida de Rua, por exemplo, ele chegou ao local por volta das 4h da manhã, duas horas antes da largada. A intenção era caminhar, aquecer e alongar para deixar a musculatura preparada para a prova.
Mesmo com as limitações, Matias completou a corrida. Ele conta que, nos primeiros quilômetros, ainda sentia a musculatura presa e precisou fazer algumas acelerações para conseguir soltar o corpo e seguir no ritmo planejado.
A história do corredor também é marcada por cirurgias. Ao longo dos anos, ele passou por quatro procedimentos no abdômen, além de cirurgias no joelho e no ombro. Uma das lesões aconteceu durante uma corrida, quando rompeu o menisco durante uma prova na Serra dos Matões.
Matias também conta que recebeu, no passado, um diagnóstico que poderia ter desestimulado sua trajetória. Após sentir dores nos pés, procurou um ortopedista e descobriu que tinha joanetes, além de outras características físicas que poderiam dificultar a prática da corrida. O conselho, porém, não foi suficiente para fazê-lo desistir. Matias decidiu continuar correndo, mas passou a buscar acompanhamento médico e a conhecer melhor os próprios limites.
Hoje, ele afirma que mantém acompanhamento com especialistas e que os médicos incentivam a prática de atividade física, desde que respeitados seus limites. O corredor, por sua vez, diz que procura correr dentro da chamada zona de conforto e evita exageros. "Então você tem que primeiro se conhecer, você vai falar com o médico especialista no assunto, para você dialogar com ele e saber fazer as perguntas, porque é interessante você ter esse conhecimento e poder passar para o médico, para ele pesquisar e dizer, olha, o caminho certo é esse", afirmou.
É essa combinação entre atividade física, acompanhamento médico e determinação que Matias considera essencial para continuar competindo. Em seu acervo pessoal, ele guarda cerca de 225 medalhas e 180 troféus, lembranças de uma trajetória construída ao longo de mais de 20 anos.
Entre as conquistas, estão cinco participações na Corrida de São Silvestre, entre 2008 e 2012. Ele também coleciona medalhas e troféus de maratonas e meias maratonas disputadas em cidades como Teresina, Fortaleza, São Paulo, Porto Alegre e Buenos Aires, além de provas de trilhas realizadas no Piauí.
Mas, para Matias, as medalhas representam mais do que resultados. Elas funcionam como registros de uma história que continua sendo escrita, mesmo diante dos diagnósticos e das dificuldades.
Em fevereiro de 2026, ele descobriu que tinha câncer de pele em estágio avançado, com metástases no pulmão e no cérebro. O diagnóstico trouxe preocupação, mas também reforçou a decisão de continuar ativo, sempre seguindo as orientações médicas e o tratamento.
O corredor afirma que também conseguiu manter o Parkinson estabilizado, com o uso de medicamentos e acompanhamento especializado. Para ele, a atividade física se tornou uma das formas de continuar enfrentando os desafios impostos pela saúde.
Matias resume sua maneira de encarar o momento atual em uma frase que carrega consigo: "Tenho consciência que sou um homem que possui dois tipos de doenças, mas não me considero um homem doente". Ele complementou ainda afirmando: "Esse é o Matias que tem fé e acredita. Eu vou vencer", finalizou.