O verde e amarelo já começou a tomar conta da Rua Juiz Emiliano Paes Landim, no bairro Dirceu, zona Sudeste de Teresina. Conhecidos por manter uma tradição iniciada há quase duas décadas, os moradores intensificaram os preparativos para concluir a ornamentação que transformou o local em uma das mais famosas ruas temáticas da Copa do Mundo na capital. Entre pinturas, bandeiras e os últimos retoques na decoração, a meta é deixar tudo pronto para o primeiro jogo da Seleção Brasileira, marcado para o próximo dia 13.
A iniciativa começou em 2006 e, desde então, atravessa gerações de moradores. Neste ano, a expectativa é repetir o cenário que tornou a rua conhecida na cidade, com asfalto pintado de verde e amarelo, muros decorados, bandeiras espalhadas pelas residências e vizinhos reunidos para acompanhar os jogos do Brasil. A mobilização começou nas últimas semanas, impulsionada pela expectativa dos moradores e pela curiosidade de visitantes que acompanham a tradição há anos.
"Pessoas de outras ruas e até de outros países que conhecem a nossa história perguntavam se este ano teria decoração novamente. Mesmo com os custos mais altos, conseguimos patrocínios e arrecadações para fazer a ornamentação", afirma o organizador Helder Almeida.
Segundo ele, cerca de 90 metros da via receberão decoração coletiva, envolvendo praticamente todas as residências do trecho. O investimento gira em torno de R$ 10 mil, embora boa parte dos materiais tenha sido obtida por meio de parcerias e doações. Como em outras edições da Copa, a programação prevê a transmissão dos jogos ao longo da rua, com televisões e telões instalados pelos próprios moradores. Durante as partidas, a circulação de veículos será restrita para garantir mais espaço ao público.
"Cada morador coloca sua televisão ou telão na frente de casa e convida amigos e familiares. A rua fica aberta para quem quiser assistir aos jogos. Desde 2006 contamos com apoio dos órgãos públicos para garantir a segurança e a organização", explica.
A expectativa é que a ornamentação esteja concluída até a estreia da Seleção. Além da decoração, os moradores aguardam as autorizações necessárias para definir a programação após os jogos, incluindo a utilização de som e possíveis comemorações na rua. Para Helder, mais importante que qualquer resultado dentro de campo é manter viva uma tradição que já faz parte da identidade do bairro.
O sentimento de pertencimento que mobiliza os moradores mais antigos também conquista novas gerações. O estudante de Educação Física Jonas Fernandes, de 21 anos, ajudou a pintar a rua em frente à própria casa ao lado da família. Ele encontrou na iniciativa uma forma de se integrar à comunidade e participar de uma tradição que já conhecia desde a infância.
"Quando eu morava no Maranhão, tinha o costume de pintar a rua durante a Copa. Quando cheguei aqui e vi esse movimento, resolvi participar também. É uma forma de entrar no clima do Mundial e reunir a família e os amigos", conta.
LEIA TAMBÉM
O encontro que a internet não substituiu
Enquanto as pinturas avançam no Dirceu, a tradição das ruas decoradas divide espaço com novas formas de acompanhar o futebol. Se em outras décadas os vizinhos se reuniam em frente às televisões instaladas nas calçadas para assistir aos jogos da Seleção, hoje a experiência da Copa do Mundo também passa pelas telas dos celulares, pelas redes sociais e pelas plataformas digitais.
Apesar das mudanças nos hábitos de consumo, iniciativas como a ornamentação das ruas continuam encontrando espaço nas comunidades. Para a socióloga Bruna Mesquita, a permanência dessas manifestações populares demonstra que a Copa do Mundo ainda funciona como um elemento capaz de mobilizar coletivamente diferentes gerações.
A preservação dessas tradições é uma forma de resistência. Elas ajudam a manter a coletividade e a convivência entre as pessoas, fortalecendo o sentimento de pertencimento e a confraternização popular
Segundo a pesquisadora, a transformação das formas de entretenimento alterou a maneira como os brasileiros acompanham o futebol, mas não eliminou a necessidade de espaços de convivência. Para ela, as ruas decoradas funcionam como pontos de encontro capazes de reunir moradores em torno de uma experiência compartilhada.
Bruna observa que, atualmente, o público divide a atenção entre a transmissão dos jogos e as interações em plataformas digitais. Comentários em tempo real, memes e conteúdos produzidos para as redes sociais passaram a disputar espaço com a própria partida, criando novas formas de participação durante o Mundial.
"Hoje existe uma disputa pela atenção do público. Muitas vezes, as pessoas acompanham o jogo enquanto comentam nas redes sociais ou assistem a outros conteúdos. Mesmo assim, esses espaços continuam importantes porque promovem encontros presenciais e experiências coletivas", avalia.
Para a socióloga, a permanência das ruas decoradas também ajuda a explicar por que o futebol continua ocupando um lugar relevante na cultura brasileira. Embora as novas gerações tenham ampliado seus interesses para outras modalidades esportivas e formas de entretenimento, a Copa do Mundo segue sendo um dos poucos eventos capazes de mobilizar simultaneamente bairros inteiros, comerciantes e famílias em torno de uma mesma celebração.
Copa movimenta comércio e expectativa de faturamento
O clima do Mundial também já é percebido no comércio de Teresina. Em semáforos, lojas de confecção e bares, a procura por produtos ligados à Seleção Brasileira cresceu nas últimas semanas, impulsionando as vendas de camisas, bandeiras e itens de decoração.
Há cerca de um mês vendendo camisas da Seleção em um sinal da capital, Maria Mary afirma que a movimentação aumentou significativamente com a proximidade da competição. "A movimentação está muito boa. Só ontem consegui vender entre 15 e 20 camisas. As mais procuradas são a azul e a amarela", relata.
A gerente de vendas, Socorro Mascarenhas, também percebeu crescimento na demanda por artigos temáticos. Segundo ela, apesar de junho concentrar datas importantes para o varejo, a Copa tem sido um dos principais motores das vendas.
"Junho já costuma ser um mês forte por causa das festas juninas e do Dia dos Namorados, mas a Copa tem impulsionado bastante as vendas. O que mais sai são bandeiras, vuvuzela e acessórios temáticos", afirma.
O aquecimento não acontece apenas no comércio varejista. Levantamento da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) mostra que 52% dos bares e restaurantes do país pretendem transmitir os jogos, e 80% desses estabelecimentos esperam aumento no faturamento em relação aos dias sem partidas. A maioria projeta crescimento de até 20% nas receitas durante o período da competição. A decoração temática lidera as estratégias adotadas pelo setor, citada por 72% dos entrevistados.
Para festejar com segurança
Quem quiser repetir a iniciativa dos moradores da Rua da Copa e fechar a própria rua durante os jogos precisa seguir um processo burocrático. De acordo com a Superintendência de Desenvolvimento Urbano (SDU) Sudeste, o morador deve se dirigir à superintendência responsável pela região, apresentar requerimento, documentos pessoais, croqui do local e um abaixo-assinado com no mínimo dez assinaturas de vizinhos.
Também é necessário informar a estimativa de público, o uso de som e a forma como será feita a limpeza após o evento. O processo envolve ainda o pagamento de taxas e a participação de outros órgãos, como a Strans e a Semam. Os prazos variam conforme o porte do evento: 15 dias de antecedência para festas com até 200 pessoas, 30 dias para eventos entre 201 e 1.500 pessoas e 45 dias para os de grande porte.
Os prazos variam conforme o porte do evento: 15 dias de antecedência para festas com até 200 pessoas, 30 dias para eventos entre 201 e 1.500 pessoas e 45 dias para os de grande porte. "Se a pessoa procurar a SDU muito próximo da data, não dá tempo de conseguir todas as autorizações necessárias", alertou o órgão.
A animação com a decoração também exige atenção à segurança elétrica. De acordo com o Anuário Estatístico de Acidentes de Energia Elétrica da Abracopel, foram registrados 2.322 acidentes de origem elétrica no Brasil em 2025, com 725 mortes.
A Equatorial Piauí reforça que o uso de produtos sem certificação do Inmetro e a fixação de enfeites em postes e cabos da rede elétrica representam riscos graves. "A Copa é um momento de alegria, mas é justamente nessas ocasiões em que a atenção à segurança elétrica deve ser alta", alerta Marcos Túllio, executivo de segurança da distribuidora.
LEIA TAMBÉM
- Copa do Mundo 2026: veja como fica o funcionamento do comércio durante os jogos do Brasil
- Jogo do Brasil na Copa dá folga no trabalho? Veja o que diz a CLT
- Decoração para a Copa exige atenção para evitar acidentes com energia elétrica
- Copa do Mundo 2026: moradores precisam de autorização para interditar ruas em Teresina? veja regras